O gatilho exato
O erro e o pecado são companheiros de caminhada, mas de naturezas distintas. Nem todo erro é pecado. Erramos o alvo por distração, por cálculos malfeitos, pelas nossas tentativas trôpegas de acertar. O erro é o tombo acidental que denuncia a nossa limitação, e é pedagógico.
O pecado cruza a fronteira do mero desvio. É violação deliberada do essencial, fratura na relação com o Sagrado, quebra da harmonia interna. A sua gravidade não reside no ato mecânico, mas no rompimento voluntário da busca pela retidão.
Confesso: o fracasso já foi rotina para mim. Aos que me imaginam envolto em uma aura de perfeição, desfaço a ilusão agora. Nunca fui santo. Lutei desesperadamente por essa santidade, e faltou-me fôlego, ou talvez a compreensão exata do peso que ela exige. A santidade não é um troféu que se conquista e se guarda na estante: é uma marcha exaustiva que, muitas vezes, me pareceu um horizonte inalcançável.
Dispenso a pretensão de formular tratados teológicos sobre a transgressão, porque as bibliotecas já estão cheias deles. A verdade nua e crua é que ela me persegue, me confronta e me seduz.
As minhas próprias quedas já me assustaram, e o que mais me atormenta é a incapacidade de rastrear o gatilho exato. Teria sido o desespero para saciar uma carência oculta? Teria sido a arrogância de achar que eu não precisava de ninguém, nem mesmo da graça de Deus? Ou será que essa fenda sempre esteve cravada em mim, operando na linha tênue entre a minha sede de virtude e a miséria das minhas limitações?
Ceder ao pecado obrigou-me a encarar o espelho. Sou um ser humano assustadoramente frágil e, ao mesmo tempo, obstinado. Quer eu tenha tropeçado por ignorância, quer eu tenha pulado no abismo com plena consciência, o sabor da queda foi sempre amargo.
A ilusão da autossuficiência moral acabou. A minha única vitória não é a ausência de quedas, mas a rendição à minha necessidade diária de redenção.


