Uma âncora que ninguém atirou
A dor da ansiedade é uma corrente invisível que esmaga a alma e asfixia o corpo. O seu nascedouro é a garganta, um nó que anseia por desatar-se e que se retorce. A garganta, esse limiar exato entre o dito e o não dito, converte-se no lugar onde a angústia inicia a sua marcha. É uma tensão que vibra como uma palavra aprisionada, um grito abortado. A partir dali, essa força despenca até o estômago, onde finalmente se aloja: um ponto de chegada denso e de chumbo, fixado como uma âncora que ninguém atirou.
O estômago transforma-se no cemitério daquilo que deveria ter sido expelido e que se voltou contra o próprio hospedeiro. É o destino de uma energia que, impedida de se expandir, colapsa e se condensa. Trata-se de um estado crônico de suspensão, uma tensão ininterrupta entre o real e o imaginário, uma preparação exaustiva para um cenário que nunca se materializa.
Se a origem é a garganta, qual é o verdadeiro gatilho? Será a palavra não dita, o desejo asfixiado, a verdade que foi engolida a seco e que, em vez de ser verbalizada, petrificou-se em peso? A ansiedade é o refluxo daquilo que nos pertence e que, por covardia ou incompreensão, trancafiamos. É a mordaça voluntária, o desejo que, ao não encontrar a porta de saída, apodrece em forma de dor latente.
A palavra que exige ser dita, quando retida, enrosca-se em nós como uma serpente, e cada volta aperta mais. Esse movimento antinatural de engolir a própria essência cria uma distorção onde o natural se torna tortuoso. O fluxo que deveria desaguar no mundo volta-se para dentro, gerando um redemoinho insolúvel.
Nesse atrito entre o que precisa ser dito e o que se engole, a ansiedade revela a sua anatomia. É a fatura altíssima que pagamos por cada sílaba engolida, cada verdade maquiada e cada desejo recalcado. É o luto do não-vivido.
A ansiedade prova que o silêncio também adoece.


