Filosofia & Teologia

Prometem chuva, entregam seca

A Carta de Judas cabe em vinte e cinco versículos e gira em torno de um único verbo: guardar.

Os destinatários são chamados, santificados em Deus Pai e conservados por Jesus Cristo. Os anjos que caíram são precisamente os que não guardaram o seu principado. Os leitores são exortados a conservar-se no amor de Deus. E o fecho declara que Ele é poderoso para guardá-los de tropeços. Somos guardados, alguns falharam em guardar, devemos nos guardar, e no fim é Ele quem guarda.

O autor se apresenta como servo de Jesus Cristo. Sendo irmão de sangue de Jesus, poderia reivindicar essa proximidade como título de prestígio, e escolhe a humildade do serviço. Coloca-se à disposição sem considerar a honra que a genética lhe conferiria.

Ao rogar que a misericórdia, a paz e o amor sejam multiplicados, ele aponta para os três pilares da vida espiritual. A misericórdia nos cobre e nos dá um valor que não possuímos por nós mesmos. A paz é a harmonia interior de um coração rendido. E o amor é a mais alta expressão daquilo que fomos chamados a ser.

Judas então exorta a batalhar pela fé que uma vez foi dada aos santos. A fé, ainda que seja dom gratuito, exige luta e preservação. Não é virtude passiva: precisa ser cultivada com zelo, ou se esvai na rotina.

A advertência ganha tons sombrios quando ele revela que o mal se infiltrou na igreja. Homens ímpios introduziram-se disfarçados entre os fiéis, provando que o perigo nem sempre está lá fora. Ele pode sentar-se ao nosso lado, camuflado de piedade.

Ao trazer à tona o povo que pereceu no deserto pela descrença, os anjos caídos e a ruína de Sodoma e Gomorra, Judas lembra a seriedade do juízo. Deus é amor, e o amor não anula a justiça. A misericórdia não é cheque em branco para a libertinagem.

Até o embate entre o arcanjo Miguel e o diabo carrega uma lição. Miguel, em todo o seu poder, não ousa pronunciar maldição contra o adversário, limitando-se a declarar: “O Senhor te repreenda.” Se até os anjos agem com reverência, não cabe a nós encarar a batalha espiritual de maneira leviana.

Vale notar, aqui, uma particularidade que faz de Judas uma carta singular: esse episódio vem da Assunção de Moisés, e a profecia citada mais adiante vem do livro de Enoque. Duas obras de fora do cânone, dentro de uma epístola de vinte e cinco versículos.

O clamor atinge o seu ápice ao classificar os falsos mestres como nuvens sem água, árvores murchas e desarraigadas, estrelas errantes. São imagens precisas do vazio. Eles prometem chuva, mas entregam seca. Vivem de aparências e são levados pelos ventos da moda teológica.

A carta conclui com um chamado prático. Enquanto aguardamos a vida eterna, devemos nos conservar no amor de Deus. O falso ensino seduz com novidades, e somos chamados a guardar o bom depósito.

E no encerramento, Judas nos devolve à glória Daquele que é poderoso para nos guardar de tropeços e nos apresentar irrepreensíveis. O verbo que abriu a carta é o mesmo que a fecha, e da segunda vez o sujeito não somos nós.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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