A curiosidade me governava
Serei eu capaz de redigir a minha própria justificação diante de Deus? Essa interrogação ecoa em mim hoje com uma gravidade que a inocência da infância jamais comportaria. Na aurora da vida, a santidade parecia desprovida de mistérios. A lógica era exata, quase matemática: bastava não ceder ao erro explícito, seguir as regras do jogo e manter a postura. Para a mente de um menino, o pecado era apenas uma falha de cálculo, uma fraqueza evitável pela força de vontade.
Mas o tempo é o grande corruptor das certezas infantis, e traz consigo desvios de rota tão sutis que beiram a invisibilidade. Fui sempre movido por um fascínio visceral pelo conhecimento, pela urgência de desbravar novas teses e alargar fronteiras. Contudo, essa fome investigativa, que a princípio soava como a mais nobre das virtudes, revelou-se uma força autônoma. O desejo de saber passou a flertar com os limites do que era lícito e seguro. Sem que eu percebesse a erosão dos meus próprios alicerces, o meu intelecto conduziu-me para longe do Criador.
A cisão foi inevitável: de um lado, o temor ao Sagrado; do outro, a necessidade insaciável de devorar o fruto do desconhecido. Fui cedendo centímetros diários até me deparar em território de exílio. Ali, qualquer defesa perante Deus já não se sustentava, e a velha obsessão infantil por fazer o certo revelou-se uma estrutura de papel.
A realidade cobra um preço altíssimo pela nossa arrogância. Acreditamos segurar as rédeas da própria vida quando, na verdade, somos nós os cavalgados pelas nossas obsessões. A curiosidade me governava.
E essa constatação levanta um espelho aterrador: quantas outras tiranias silenciosas ditam as minhas ações sem o meu consentimento? A alma humana abomina o vácuo. Seremos sempre escravos de algo ou de alguém, e resta escolher a quem servir.
A autojustificação é um tribunal viciado, onde o réu tenta ser o próprio juiz. Somente Cristo detém a autoridade para assinar a absolvição. Ele rastreia cada desvio da mente, mapeia as fragilidades e nos conhece com uma profundidade que a nossa própria psique ignora.
Que o mesmo furor pelo conhecimento que um dia me afastou da Graça seja redimido.


