Artes & Narrativas

Salmo da Fratura: A Confissão do Barro e a Esperança da Graça

Ó Senhor, eis-me aqui: despojado de orgulho, com as ilusões rasgadas, em absoluta confissão. Os meus pecados são densos e incansáveis como as ondas que se chocam contra o abismo do mar; são imensuráveis como os grãos de areia que a matemática humana jamais conseguirá abraçar. Sou, na minha essência, um pecador, e diante da Tua santidade reconheço a minha total falência e a urgência desesperada por renovação.

Na aurora da vida, o meu coração nutria o desejo puro de Te agradar. Carregava a certeza ingênua de que atravessaria os dias de forma irrepreensível, confiando que a minha própria força moral bastaria para sustentar o sagrado. O tempo, contudo, foi o mestre implacável que me revelou a fratura exposta da minha natureza. À semelhança de Adão, usei a minha liberdade para pavimentar a estrada do afastamento, embrenhando-me em escolhas e desejos que me exilaram da Tua presença. Cada desvio acrescentou uma nova camada de sombra ao meu espírito. E, ainda assim, no fundo do abismo em que caí, o Teu amor rompeu a noite e me resgatou. Hoje, a minha alma sabe que não sobrevive longe da Tua luz; és o meu Salvador e o meu abrigo definitivo.

Na aspereza da jornada, vejo-me frequentemente ferindo justamente aqueles que mais amo, deixando cicatrizes ardentes de decepção por onde passo. As lágrimas que verto nascem da dor aguda de saber que falhei Contigo e de que estou longe de ser o filho perfeito que a cartilha exigia. Do subsolo da minha alma, eu grito: Pai, não desistas de mim! Ensina-me a Te servir com a verdade e a não ser feito refém das ilusões e das artimanhas do meu próprio coração.

Há dias de vigília em que me julgo uma fortaleza. Mas há noites em que desmorono e me encontro caído, asfixiado pela vergonha da minha fragilidade. Nesses escombros, sinto o peso da traição de Judas, a covardia de Pedro, a luxúria de Davi e a miséria do filho pródigo disputando as bolotas. É no meio da sujeira das minhas falhas, porém, que o arrependimento germina e a alma clama por uma folha em branco.

Meu Deus, apenas a Tua misericórdia pode me purificar dessa escuridão. Suplico, com o eco agonizante da voz de Davi: não afastes de mim o Teu Espírito Santo. Não permitas que eu seja esmagado pelo fardo das minhas próprias escolhas. Sou pó e errância, mas em Ti encontro direção e vigor. Sustenta-me contra os ventos da tentação. E embora eu saiba que as minhas mãos limitadas jamais conseguirão retribuir a vastidão do Teu amor, o meu espírito Te ama. És a luz da minha redenção, a paz das minhas feridas e o único lugar onde, finalmente, eu ouso descansar.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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