Medir o oceano com uma régua escolar
Em meio ao ceticismo contemporâneo, onde o afã materialista tenta confinar o real às fronteiras do tangível, ergue-se uma inquietação: seria possível, por vias puramente físicas, abarcar aquilo que é, por natureza, eterno?
A ciência moderna, com toda a sua grandeza e utilidade inegáveis para examinar as engrenagens do mundo físico, exclui o sagrado porque o divino escapa aos recortes das suas observações. Isso não é falha do método: é o próprio método. Deus não é um objeto para ser dissecado em uma bancada de laboratório. Ele é a Fonte que sustenta o sujeito que O observa. Qual é o sentido de demandar prova material de uma Presença que atua como premissa de toda a realidade?
Há também o argumento da antropologia. A religiosidade é um fenômeno universal: não se conhece cultura humana sem ritos, sem sagrado, sem ânsia de redenção. Essa sede não é mera coincidência cultural. A consciência moral, a repulsa ao caos e o sentimento inato de eternidade são impressões digitais deixadas na nossa essência.
É exatamente onde a ciência esgota as suas hipóteses que a revelação se faz necessária. As Escrituras não são produto de mentes especulativas tentando adivinhar o cosmos: são a comunicação perene do Eterno, que teve a condescendência de descer à fragilidade da linguagem humana.
Reduzi-las a mito é tentar medir o oceano com uma régua escolar.



4 Comments
Anônimo
Oie ótimo texto Tiago! fantástico…fiquei até sem palavras..rsrs
bjuusss
Danielle
Tiago Rizzolli
Olá, Danielle! Muito obrigado pelo carinho e pelo tempo dedicado a essa leitura. Quando uma reflexão tão densa consegue tocar alguém a ponto de deixar ‘sem palavras’, eu sinto que a verdadeira missão da escrita foi cumprida. Fico imensamente feliz e grato que o texto tenha ressoado de forma tão positiva em você. Um grande abraço!
Anônimo
Mininu, essas palavras são de Olavo de Carvalho. Não se esqueça dos créditos dele hein…
Tiago Rizzolli
Olá! Muito obrigado pela leitura atenta e pelo comentário. O texto é de minha autoria, mas a reflexão bebe de uma longa e riquíssima tradição filosófica e teológica cristã (que critica o reducionismo de Kant e defende a autoconsciência como reflexo do divino). Olavo de Carvalho foi, sem dúvida, um dos grandes leitores e difusores dessa tradição no Brasil, resgatando pensadores clássicos que abordam exatamente isso. É muito natural e gratificante que essas grandes ideias ecoem e se cruzem por aqui! Um grande abraço.