Caixas de ressonância
Existe uma melodia própria para cada tempo, uma nota exata para cada instante. No coração, abrigamos fragmentos de memória que não se dissipam com a ventania dos anos, mas permanecem sólidos e vivos, ressoando no compasso do que vivemos. Cada canção que nos atravessa é uma tentativa da alma de tocar a essência do próprio sentimento. E quando finalmente nos expressamos, percebemos quem realmente fala. Não é a boca. A boca apenas empresta a sua estrutura física para que o coração transforme o que sentimos em palavras.
A música tem o poder implacável de denunciar o que somos por dentro. Quando revelo o meu coração, são as melodias que habitam em mim que falam. E é exatamente aqui que a arte esbarra no sagrado.
Ser espiritual é, antes de tudo, ser profundamente humano. Não alcançamos a plena condição da nossa humanidade sem antes descer ao nosso próprio interior, o lugar onde reside a nossa acústica original. A espiritualidade não nos afasta da realidade para nos tornar anjos: ela nos aterra e nos conecta àquilo que somos na essência. Aquilo que reverbera dentro de nós é o que ensurdece ou harmoniza o mundo ao nosso redor.
Nós não somos folhas em branco. Somos caixas de ressonância.
A grande tragédia moderna não é o silêncio, mas o fato de emitirmos constantemente o barulho de almas vazias.
Sempre haverá um som e uma voz tentando se manifestar através de você. Mas a vida não pede apenas que você escolha uma boa trilha sonora para se distrair do caos. Ela exige saber o que você tem deixado ecoar no silêncio.


