Filosofia & Teologia

A Ilusão do Controle e a Anatomia do Milagre

A incredulidade é o luxo daqueles que acreditam ter a vida sob controle. É terrivelmente natural não acreditar em milagres quando o cenário ao redor é confortável, quando a conta bancária traz segurança e o amanhã parece apenas uma repetição lógica do hoje. Quando a realidade está domada e ao alcance das nossas mãos, o ceticismo não é apenas compreensível; ele é inevitável.

Mas o que acontece quando a vida, em suas reviravoltas implacáveis, nos empurra para fora do nosso domínio? É no exato milissegundo em que o chão cede que o véu da autossuficiência se rasga. E é ali, no território do desamparo, que o milagre e a fé encontram terreno fértil para florescer.

Confesso que nem sempre abriguei certezas inabaláveis sobre o sobrenatural, embora ele tenha insistido em cruzar o meu caminho repetidas vezes. Mas precisei admitir uma verdade incômoda: a minha fé só ganha músculos quando o controle me escapa das mãos. É a cegueira do planejamento frustrado que obriga a alma a enxergar no escuro. Quando o visível desmorona e o tangível se dissipa, a fé emerge não como um consolo psicológico, mas como a única força gravitacional capaz de nos manter de pé.

Acredito que o Eterno mantém o desejo constante de intervir na nossa história, mas nós sofremos de um mal crônico: não deixamos espaço para Ele agir. A nossa obsessão por previsibilidade lota todos os cômodos da nossa existência. Ocupamos tanto tempo gerenciando riscos e tentando prever o futuro que bloqueamos a porta para o inesperado. Deus não concorre com a nossa agenda. Para que a graça opere, é preciso antes preparar o caminho, e preparar o caminho é, essencialmente, o ato de soltar as rédeas.

O milagre é, por definição, uma invasão. É o extraordinário rompendo a tirania da razão. Mas essa dimensão só se torna visível para quem tem a coragem de esvaziar as próprias mãos. Dizer que “o Senhor é o meu Pastor e nada me faltará” não é um feitiço para evitar as dores do mundo, mas a rendição madura de quem entendeu que não é mais o dono da própria rota.

Que a nossa fé não dependa da ilusão de que controlamos tudo, mas da certeza de Quem nos segura quando não controlamos mais nada.

 

A incredulidade é o luxo de quem acha que tem a vida sob controle. Qual foi o momento em que a vida "tirou o chão" dos seus planejamentos e te obrigou a depender exclusivamente do milagre? Deixe o seu relato nos comentários.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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