Saber vazio
Há uma inquietação que me acompanha há tempos, uma pergunta que, por teimosia ou necessidade, recuso-me a silenciar. Fomos ensinados que ter dúvidas é um sintoma de fraqueza espiritual. Mas hoje percebo que expor a nossa incerteza é a única porta de entrada para a luz.
Muitos vivem aprisionados em meias-verdades e fés superficiais simplesmente porque nunca tiveram a coragem de confessar a própria ignorância. Para sermos preenchidos, precisamos primeiro ter a coragem de nos esvaziar. O ato de entregar a nossa dúvida a Deus, reconhecendo que o nosso conhecimento é incompleto, trêmulo, mas sincero, é o que chamo de “saber vazio”. O saber vazio não é a ausência de desejo; é o desespero de quem sabe que não consegue se salvar sozinho.
A dinâmica dos milagres de Cristo ilustra isso. Antes de curar, Jesus frequentemente confrontava o necessitado com uma pergunta que parecia óbvia: “O que queres que eu te faça?” Ele não perguntava por não saber a resposta, mas porque exigia que a pessoa declarasse o seu vazio. A graça só encontrava espaço para operar onde a autossuficiência havia morrido. Quando Jesus dizia “a tua fé te curou”, não estava premiando uma crença intelectual, mas reconhecendo a rendição de quem admitiu não ter mais nada nas mãos.
É com essa mesma dependência que me vejo diante da pergunta que me assombra: afinal, o que é o amor?
Confesso que a doutrina do amor, na sua essência pura e radical, me escapa. Vejo o mundo usando essa palavra à exaustão, muitas vezes reduzindo-a a sentimentalismo, conveniência ou troca de favores. O meu maior temor é cair na mesma armadilha: a de achar que já compreendo o que é amar, quando, no fundo, talvez eu esteja apenas tateando no escuro, confundindo afeto raso com o peso de uma entrega verdadeira.
Se o amor real é aquele encarnado no Crucificado, daquele que se esvaziou de toda a sua glória para pisar no nosso chão, suportar a nossa miséria e lavar os nossos pés, então eu preciso ser honesto. Eu ainda não sei o que é amar.
E é exatamente por reconhecer essa dolorosa ignorância, descalço de toda arrogância, que coloco o meu saber vazio diante dEle. Não peço que me explique o amor. Peço que me ensine a vivê-lo.


