Pólis & Gestão

Andaime

Ser escolhido como o provisório pode soar como uma sentença de insignificância, uma posição que sugere substituibilidade e uma espera amarga até que o definitivo ocupe o lugar. Mas essa leitura ignora a profundidade do gesto. Há uma sabedoria em aceitar a interinidade, porque escolhas nunca são neutras.

Ser o provisório é revelar uma força que o permanente raramente exige: a coragem de ser a resposta quando o futuro ainda é uma neblina. Assumir esse papel significa que, no momento crítico, você se apresentou como a solução para um vazio que não podia esperar. É um ato de resistência contra a neurose da permanência, um sinal de que, mesmo sem as garantias do aplauso, você se dispôs a sustentar o que era necessário.

Pode-se argumentar que a escolha recai sobre o provisório por falta de opções. Às vezes é exatamente isso. Não havia outro nome, o prazo apertava, e o convite chegou por descarte. Mas isso não altera o que veio depois: quem aceitou continua tendo aceitado, e a obra continua precisando de quem a segure.

A interinidade carrega uma liberdade singular. Quem habita o transitório não teme o julgamento do minuto seguinte, e desafia a si mesmo a transformar o efêmero em algo que transcenda a própria duração.

O provisório não se esconde na sombra do definitivo. Ele ergue-se como a andaimaria indispensável que suporta o peso da dúvida e da necessidade. E o definitivo nada seria sem a interinidade que o pavimentou.

O valor não reside em ser eterno, mas em ser presente. A coragem, ao contrário dos cargos, é sempre definitiva.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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