No chão comum
Aconteceu no limiar entre 2008 e 2009, na Assembleia de Deus em Padre Gabriel, congregação do Ministério Vale Esperança. O culto já havia se encerrado, talvez fosse o fim de uma festividade, e o que cravou na memória foi o instante em que um homem, cujo rosto eu nunca havia cruzado e jamais voltaria a ver, caminhou na minha direção.
Era um sujeito de pele escura e estatura mediana, vestido com uma camisa social preta. Não sei o seu nome, a sua origem ou o seu destino.
O encontro não se deu sob o calor dos louvores nem durante o sermão. Aconteceu no rescaldo, quando o barulho começava a se dissipar e as pessoas retomavam as suas conversas triviais. Do lado direito do altar, não sobre o púlpito, mas na margem, no chão comum, aquela figura discreta me chamou. Não houve grito nem convocação exaltada.
Aproximei-me, e ele, com a objetividade de quem apenas cumpre uma missão, disse: “Continue fiel a Deus. Deus está se agradando de você. Se você for fiel a Ele, Ele vai te abençoar muito.”
Não havia traço de teatralidade religiosa. Não houve espaço para justificativas ou contextos, apenas a entrega crua. Assim que proferiu a última sílaba, ele partiu. Não trocamos apresentações, não houve perguntas. Simplesmente se dissolveu no fim daquela noite.
A memória permanece intacta.


