O Beco de Barro e Pedra: A Travessia e o Batismo de Spagnal
No meu mundo, ao adentrar aquela rua de paralelepípedos banhada em tons de amarelo e alaranjado, tingida pelo barro que sangrava da encosta de pedra à direita, senti a espinha vibrar. Foi ali, na quebrada exata entre a saída da Vila Batista e a entrada de Pedra dos Búzios, que o fascínio me tomou de assalto. Parecia que eu acabara de cruzar um limiar invisível, inaugurando a força de um ciclo de possibilidades inéditas.
Fizemos a travessia a pé, eu e meus pais, caminhando em direção ao que seria o nosso novo lar. Mas nós não apenas chegamos; nós avançamos para além da margem. Fomos tateando cada vez mais fundo, engolidos pelo ponto onde a calçada minguava até a rua se estrangular, definitivamente, num beco.
Foi lá, na profundidade daquela trincheira de pedra e barro, que ouvi pela primeira vez a palavra Spagnal. O som bateu nos meus ouvidos de menino não como um nome comum, mas com o peso de um clã, a aspereza de um sobrenome antigo. E, mesmo sem dominar a sua semântica, o meu instinto soube no mesmo instante: aquele som áspero carregava história, origem e, muito possivelmente, um destino.
As memórias mais antigas da nossa infância muitas vezes não vêm em formato de histórias completas, mas de sensações soltas: a cor do barro escorrendo em uma pedra, o estreitamento de uma rua ou o som estranho de uma palavra ouvida pela primeira vez em um beco. Esses pequenos fragmentos são os tijolos com os quais construímos a geografia da nossa própria identidade.


