O Chocolate Curvado
Eu tinha entre dezesseis e dezessete anos e era professor de Escola Dominical para pessoas da minha própria idade. Era no bairro Primeiro de Maio, em Vila Velha, por volta de 2002. Aos domingos subia e descia as escadas do segundo piso com a regularidade das coisas que viram ritual sem que ninguém decrete. A sala de aula ficava em cima. Havia o que aprender, e havia pressa em aprender, porque logo seria preciso ensinar.
Depois da Escola Dominical, iríamos desenvolver um trabalho. A maioria tinha faltado. Menos ela.
O olhar dela já era afetuoso havia algum tempo. Eu via e não processava. Ou processava e escolhia não saber. Naquele dia ficou nítido, quando só Deus era testemunha.
Faltava pouco para a partida.
No segundo piso havia vários cômodos: a secretaria, uma cozinha, um quarto, uma sala e uma varanda. Saí da sala onde estava a mesa e fui até a secretaria. Ao voltar, vi ela de costas para mim, inclinada para frente, estática, mexendo só as mãos. Fiquei parado. Tentei ver onde estava a cabeça dela e vi os cabelos.
Pensei: ela me odiava. Por que estou prestando atenção nela?
Uma mesa à frente. Uma cartolina a estender.
Veio uma coragem de me aproximar por trás, com uma convicção extrema, como se houvesse certeza de aceitação. O corpo não acompanhou o pensamento. O corpo não saiu do lugar.
Ela ficou entre mim e a mesa. Inclinou-se ainda mais devagar e manteve a inclinação, abrindo a cartolina com a concentração de quem está fazendo apenas aquilo.
Eu pensei.
Ela se levantou. A cartolina ficou aberta sobre a mesa.
O chocolate curvado ficou intacto.


