Artes & Narrativas

O Chocolate Curvado

Há uma forma de presença que não é desejo.

Ou melhor, é desejo, mas domesticado por algo maior que ele. Governado. Conduzido pela mão firme do respeito, da responsabilidade, da consciência de que certas distâncias não existem para ser vencidas, mas para ser honradas. E há uma nobreza específica nesse tipo de contenção, não a nobreza fácil de quem não sente, mas a nobreza difícil de quem sente e mesmo assim escolhe não avançar.

Não era aversão. Era precisamente o oposto.

Era o temor que nasce da estima, esse medo delicado de comprometer o que existe pelo que poderia existir. A fala era pouca. O trato, cuidadoso. A conduta permeada por aquela forma de atenção que não se anuncia porque sabe que anunciar-se seria diminuir-se. E assim os dias passaram, nos domingos, no segundo piso onde se subia e descia com a regularidade das coisas que se tornam ritual sem que ninguém decrete, ali onde o dia do trabalhador chegava e passava como todos os outros dias, pontuado apenas pelo sobe e desce das escadas e pela presteza em aprender para logo ensinar.

Essa presteza me cegava.

Não de forma ingênua, mas com a cegueira específica de quem foca tão intensamente no que há para fazer que deixa de enxergar o que já não há mais. O olhar dela já era afetuoso. Eu via mas não processava. Ou processava e escolhia não saber, porque não saber era mais seguro, porque a distância tem as suas vantagens, porque o respeito que eu havia construído era uma arquitetura que não sabia se suportaria o peso de uma pergunta diferente.

E então chegou o derradeiro tempo.

Faltava pouco para a partida, esse horizonte que se aproxima com a crueldade silenciosa dos fins que não pedem licença. Em uma ocasião toda desproporcional: o lugar era o habitual, mas o horário não era o convencional. E não havia ninguém. Apenas eu, ela, e o chocolate curvado, aquele detalhe pequeno e preciso que o acaso deposita nas cenas que merecem ser lembradas, como se a vida soubesse que a memória precisa de um objeto concreto para ancorar o que de outra forma seria apenas atmosfera.

De repente o tempo deu uma pausa.

Olhei para ela.

E então vi, com aquela visão que só chega quando a guarda baixa por um instante, que o olhar era hipnótico. Que os lábios estavam molhados. Que havia ali uma presença que eu havia estado administrando cuidadosamente por meses sem admitir para mim mesmo o que estava administrando.

Uma mesa à frente. Uma cartolina a estender.

Ela adentrou o meu espaço. Ficou entre mim e a mesa, naquela zona de proximidade que o corpo reconhece antes que a mente processe, aquela distância que não é mais distância mas ainda não é chegada. Se inclinou devagar e manteve a inclinação, abrindo a cartolina sobre a mesa com a concentração de quem está fazendo apenas isso e ao mesmo tempo fazendo muito mais.

O tempo continuou pausado.

E eu pensei.

Pensei com aquela velocidade específica do instante que sabe que é instante, que contém em si a consciência da sua própria brevidade, que pressiona exatamente porque não vai durar. Pensei no respeito e na responsabilidade. Pensei no que havia sido construído e no que poderia ser comprometido. Pensei no olhar hipnótico e nos lábios molhados e na cartolina aberta sobre a mesa e no chocolate curvado e no tempo que havia dado uma pausa como se o próprio universo estivesse aguardando.

Mas a oportunidade passou.

Não foi covardice, ou talvez tenha sido, e a diferença entre covardice e nobreza às vezes é tão fina que só o tempo consegue traçá-la. Foi a arquitetura do respeito se mantendo de pé quando poderia ter desabado. Foi a escolha, consciente, custosa, silenciosa, de honrar o que havia sido construído em vez de arriscar o que poderia ser criado.

Ela se levantou.

A cartolina estava aberta sobre a mesa.

E o que poderia ter sido ficou exatamente onde sempre ficam as coisas que escolhemos não tocar, dentro do peito, com o cuidado específico das coisas frágeis, guardadas não por medo de perdê-las, mas por respeito à sua exata forma.

O chocolate curvado ficou intacto.

Como tudo que vale mais do que a sede que sente.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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