As perdas rimam
Tenho habitado a convicção de que a sinfonia da vida só atinge a sua plenitude porque não hesita em acolher tanto os acordes dissonantes quanto os suaves. É o entrelaçar dessas notas opostas que confere gravidade ao choro de quem sofre e leveza ao riso de quem celebra. Aceitar a autoria dessa composição implica reconhecer que não nos é dado o luxo de escolher apenas os trechos fáceis.
Hoje, enquanto a minha pauta toca acordes irremediavelmente tristes, a memória reverbera em uma simetria impressionante.
A notícia dolorosa me alcançou pela voz da minha esposa, ao telefone, enquanto eu estava na minha sala de trabalho. Quando a minha outra avó faleceu, a despedida chegou exatamente do mesmo modo. Daquela vez foi à tarde; desta, pela manhã. Daquela vez eu ocupava uma sala mais próxima à porta principal; desta, um pouco mais distante. Era o mesmo lado, no mesmo prédio, no mesmo pavimento.
As perdas parecem gostar de rimar na nossa geografia interior.
Diante da repetição desse cenário, busco refúgio no carinho dos que caminham ao meu lado. Só assim consigo suportar este trecho da música que, embora passageiro, golpeia com uma intensidade esmagadora.
Creio que Deus, na posição de Maestro, conduz esta obra. No movimento dos Seus braços invisíveis, Ele trará a paz que silencia o luto.
A sinfonia da vida é lindamente dolorosa.


