Artes & Narrativas

A Cartografia do Pão: Fornos Anônimos e a Liturgia do Cotidiano

Quando nos reuníamos na Assembleia de Deus do morro do Alagoano, houve um tempo em que celebrávamos em frente às casas de Dona Rosa (em memória) e do Natalino, o Natal. A igreja também se abrigava na casa de Dona Menininha. Havia uma geografia peculiar naquelas ladeiras: saíamos da rua principal que contornava o campo de futebol, descíamos alguns degraus e, logo à direita, ficava a casa da Dona Menininha; à esquerda, a de Dona Rosa, que nutria um grande apreço pelo meu pai.

Se seguíssemos um pouco mais, a escadaria cedia lugar ao chão de terra batida. Ali, à beira do caminho, erguia-se uma casa de portão gradeado. Diziam as vozes do bairro que ali morava um padeiro demitido, mas que, em uma teimosia quase sagrada, mantinha os seus próprios fornos acesos. O atendimento ocorria pelas frestas da grade; o portão nunca se abria. Não havia letreiros, vitrines de vidro ou balcão de mármore: apenas o escambo silencioso das moedas pela fornada quente. E não era qualquer pão. Era um pão doce, quadrado, de miolo absurdamente macio e casca fina, exalando o cheiro do açúcar no ponto exato, com a manteiga derretendo ao primeiro toque. Foi naquele portão que aprendi a minha primeira lição de ofício: o que é bem-feito não precisa de sofisticação para conquistar; basta a verdade do sabor, e a vizinhança se congrega.

Anos depois, em Vila Velha, a vida me serviu uma fornada semelhante. Morávamos em Pedra dos Búzios. Entre o nosso bairro e o Primeiro de Maio rasgava-se um canal, um antigo rio de bordas aterradas, reduzido a valão. Sobre ele, repousava uma ponte estreita, a famosa “pinguela”, erguida pela própria calosidade dos moradores e por onde até carros se arriscavam. Do outro lado, cruzando encruzilhadas, chegava-se a uma padaria modesta. Naquela época, as grandes redes dominavam a Grande Vitória, mas nenhuma delas superava aquele pão doce retangular.

Lembro-me de pagar módicos cinco centavos por unidade, no final da década de 1990. O aroma sequestrava a rua; a massa, ainda morna, entregava um dulçor discreto, sem qualquer exagero. Com o passar do tempo, contudo, a alquimia se perdeu. Talvez tenha sido uma mudança na receita, um fornilho diferente ou a mão de outro padeiro. Ou, quem sabe, foi apenas a vontade que mudou de endereço. E a regra é implacável: quando o cuidado se dispersa, o sabor se afasta.

Mais recentemente, em Aracruz, visitando os parentes da minha esposa, alguém sugeriu pães no meio de uma tarde qualquer. Costuramos as ruas estreitas da Barra do Riacho até encontrar, à esquerda, uma porta de aço erguida pela metade. Havia um fluxo vivo de gente e um calor denso de forno que escapava para a calçada. Novamente, nenhuma placa. O espaço era exíguo e a fila pulsava, disputando cada pão como se fosse o último sobre a terra. O formato era caseiro, resgatando na forma e no afeto aquele mesmo pão quadrado do Alagoano. O estrondo metálico da porta de aço, o papel pardo estalando nas mãos, o vapor doce subindo em espiral. Ali estava, mais uma vez, o encontro: a simplicidade que alimenta o corpo e pacifica a alma.

No fim das contas, compreendo que esses pães, quadrados, retangulares, caseiros, são muito mais do que trigo e água. Eles constroem pontes. Atravessam bairros, décadas e saudades; unem escadarias e valões; aproximam a igreja, a rua e a família. Quando a massa é forjada com respeito e devoção, o miolo vira comunidade. Repartir o pão é, na sua essência, repartir o tempo ao redor da mesa. São os olhares cúmplices, o calor das mãos e as pequenas histórias que fermentam entre uma fatia e outra. É um gesto de uma simplicidade tão profunda que me devolve, inteira, a certeza de que a graça habita o cotidiano. Pois onde há uma boa fornada, há casa, há gente, e há Deus.

Existem sabores e aromas que funcionam como verdadeiras máquinas do tempo. Um simples pão quente no papel pardo pode nos devolver memórias de infância, de pessoas que já se foram e de tempos onde a vida parecia caber inteira ao redor de uma mesa. Qual é aquele alimento simples que, quando você sente o cheiro ou o gosto, te transporta imediatamente para um momento especial ou para o quintal de alguém que você ama? A caixa de comentários é a nossa mesa; puxe uma cadeira.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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