Uncategorized

O Peso da Âncora e a Linha do Horizonte

A luz fraca da luminária de mesa iluminava apenas o centro da prancheta de Elias, deixando o resto do escritório mergulhado nas sombras de um ano que já havia terminado, mas que teimava em não ir embora. Era meados de janeiro. Lá fora, o mundo falava sobre recomeços, resoluções e novas dietas, mas a mente de Elias estava ancorada no fracasso de novembro: a falência de sua pequena construtora.

Ele passava os dias revisando os mesmos contratos antigos, procurando o erro exato, a vírgula fora do lugar que havia desmoronado seus planos. O passado havia se tornado sua residência permanente.

Foi durante uma dessas madrugadas insones que um vento frio entrou pela fresta da janela, derrubando uma pilha de papéis e abrindo um pequeno livro de capa de couro que repousava esquecido na estante. A página aberta exibia um título em letras garrafais: ALVO BEM DEFINIDO.

Abaixo, uma citação antiga, porém afiada como uma lâmina:

"Esquecendo-me das coisas que atrás ficam e avançando para as que estão diante de mim..."

Elias leu o parágrafo seguinte. O texto falava sobre a ilusão das promessas de ano novo quando não estão fundamentadas em objetivos sólidos. Falava, sobretudo, sobre a exigência brutal, mas necessária, de esquecer os fatos ruins do passado.

Ele soltou a respiração, um som pesado que ecoou no quarto silencioso. A psicologia do seu próprio sofrimento de repente lhe pareceu clara: ele não estava estudando seus erros para aprender, estava usando-os como escudo para não ter que tentar de novo. Como ele poderia “avançar para o alvo” se caminhava com o pescoço virado para trás?

Vale a pena lutar por nossos sonhos?

Naquela madrugada, Elias tomou uma decisão que não envolveu planilhas financeiras, mas uma reestruturação íntima. Ele juntou os contratos antigos, os projetos rejeitados e as memórias amargas, e guardou tudo na gaveta mais baixa do arquivo. Trancou-a.

Voltou à prancheta, mas desta vez, puxou uma folha em branco.

“Vale a pena lutar por nossos sonhos”, dizia o texto. Mas sonhar não era flutuar; era projetar. Elias pegou a lapiseira e começou a traçar. Não desenhou um prédio, mas um mapa mental. Definiu metas reais, prazos palpáveis, técnicas e estratégias de recuperação. Criou um alvo claro, concreto.

À medida que a grafite marcava o papel, a ansiedade crônica no peito de Elias começou a dar lugar a uma convicção silenciosa. O texto que lera prometia que não estaríamos sozinhos na busca por um futuro melhor, garantindo que o Espírito Santo proveria sabedoria e vitória em tudo o que fosse feito com retidão. Elias, que há meses confiava apenas na própria força, e falhara, permitiu-se sentir essa presença. Era um conforto inexplicável, uma certeza de que a sabedoria não vem apenas do intelecto, mas da paz de espírito de quem sabe para onde está indo.

Quando os primeiros raios de sol finalmente invadiram o escritório, dissipando as sombras, Elias olhou para a folha. O alvo estava traçado. O passado estava em seu devido lugar. E, pela primeira vez em muito tempo, ele estava pronto para dar o próximo passo.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Você não pode copiar conteúdo desta página