Filosofia & Teologia

A Poda do Ego: A Metamorfose dos Fantasmas e a Arte de Perder

Te busco com a intensidade brutal de quem sente que cada instante é único e irrepetível. Durante a tarde, quando a energia do mundo ainda pulsa vívida, o teu rastro parece tangível; na madrugada, porém, a tua presença se expande como o próprio céu noturno, vasta, fria e insondável. Ao amanhecer, na calmaria da primeira luz, essa essência se renova e se recria. É a promessa de algo que, mesmo em constante renascimento, permanece velado, aguardando o milésimo de segundo exato para se revelar.

Os fantasmas que emergem nesse processo assemelham-se a sombras vegetais, formas orgânicas que rasgam o tecido da realidade e carregam a estranheza de um plano onde o visível e o invisível coabitam. A realidade aglomera-se de forma fragmentada, e o irromper das águas em correntes e redemoinhos ganha nitidez, como se a própria mecânica da vida expusesse as suas raízes molhadas. No leito dessas águas cristalinas, escondido como um segredo primordial, repousa o mistério da escuridão. É um plasma intangível que se recusa a ser visto, mas que denuncia tudo o que ainda está por vir. Há uma revelação que teima em se adiar, algo que, ao permanecer oculto, ensina-nos a cavar cada vez mais fundo.

O esvaziamento talvez seja a forma mais perfeita de se reencontrar. É o processo pelo qual aquilo que era já não é; algo que se despede e abandona, no seu rastro, o terreno limpo para uma nova possibilidade. Renunciar é aceitar que há momentos em que, ao soltarmos as amarras, finalmente nos aproximamos do essencial. Quando algo foge violentamente do nosso controle, chamamos de perda; mas se essa âncora nos mantinha aprisionados, então esse naufrágio é, na verdade, uma alforria. É uma via dolorosa de ganho que revela o que de fato importa. Flagro-me nesse exato processo de poda, perdendo a admiração confortável das pessoas, o brilho inebriante do encanto inicial e o ambiente que, um dia, juramos ser nosso.

Agora, os fantasmas retornam, mas assumem contornos distintos. Já não são vegetais silenciosos, mas animais racionais. São figuras que carregam uma nova consciência, atuando como espelhos cruéis daquilo que fomos e do que morremos de medo de ser. Eles são os ecos de um passado que ainda respira e que, ao mesmo tempo em que se distancia, nos intima a decidir o que ainda precisa ser abandonado e o que merece ser preservado. Esses espectros, munidos da lucidez de quem enxerga através do nevoeiro, convidam-nos a separar o que é genuinamente nosso da mera ilusão provocada pelo apego.

O desapego converte-se, assim, em travessia. Uma ponte onde o que se vai deixa o espaço exato para o que realmente é. E, ao ver desmoronar o que um dia julguei ser fundamental, encontro dentro de mim a única coisa que resta e que pulsa, silenciosamente, no escuro do meu próprio ser.

Fomos ensinados a enxergar qualquer perda como uma tragédia absoluta, mas a maturidade nos mostra que muitas delas são, na verdade, “podas” necessárias para nos libertar de pesos, de dependências e de ilusões. Qual foi aquela perda na sua vida que doeu muito no início, mas que acabou se revelando uma verdadeira alforria para a sua essência? A caixa de comentários é o nosso espaço seguro para partilhar essas travessias.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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