Filosofia & Teologia

As paralisias que consentimos

Na ausência há um gosto férreo que recusa nos abandonar. É o sabor amargo da impossibilidade, o ressoar de uma partitura que poderia ter sido tocada e que silenciou.

A ausência nunca é apenas uma falta: é uma presença dilacerante que se impõe nos intervalos, uma sombra espessa feita de escolhas não vividas, de gestos abortados e de palavras que morreram na garganta antes de ganharem o mundo.

Carregar essa ausência é transitar por um deserto interno onde cada grão de areia é a fratura de uma memória. Surge, a cada passo, o eco da fantasia: o desejo de varar o passado e torná-lo matéria dócil, a vontade de costurar nele a lucidez que só a perda concede.

Mas essa impossibilidade revela-se um mestre silencioso. A ausência nos confronta com a nudez da nossa finitude e nos entrega, intacto, o poder do agora.

A nossa identidade se forja tanto pelos passos que damos quanto pelas paralisias que consentimos.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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