As paralisias que consentimos
Na ausência há um gosto férreo que recusa nos abandonar. É o sabor amargo da impossibilidade, o ressoar de uma partitura que poderia ter sido tocada e que silenciou.
A ausência nunca é apenas uma falta: é uma presença dilacerante que se impõe nos intervalos, uma sombra espessa feita de escolhas não vividas, de gestos abortados e de palavras que morreram na garganta antes de ganharem o mundo.
Carregar essa ausência é transitar por um deserto interno onde cada grão de areia é a fratura de uma memória. Surge, a cada passo, o eco da fantasia: o desejo de varar o passado e torná-lo matéria dócil, a vontade de costurar nele a lucidez que só a perda concede.
Mas essa impossibilidade revela-se um mestre silencioso. A ausência nos confronta com a nudez da nossa finitude e nos entrega, intacto, o poder do agora.
A nossa identidade se forja tanto pelos passos que damos quanto pelas paralisias que consentimos.


