Existencialismo
Artes & Narrativas
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Ensaios da Realidade: O Funeral da Formiga
No quintal de casa, no bairro Grande Vitória, o palco era simples, mas cheio de possibilidades. Bastava uma formiga morta e uma caixa de fósforo vazia para que minha imaginação transformasse o ordinário em algo quase cerimonial. A brincadeira daquela tarde ensaiava um aspecto profundo da realidade: a despedida. A formiga, encontrada já sem vida, tornou-se o centro de um ritual. Peguei a caixa de fósforo e a transformei em um pequeno caixão. Cuidadosamente, coloquei a formiga dentro, fechando a tampa com um senso inesperado de reverência. Em seguida, comecei a escavar a areia do quintal, criando um buraco que serviria de sepultura. Era pequeno, proporcional ao tamanho do ser…
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Memórias de Uma Infância Distante: As Idas e Vindas da Escola
As idas e vindas da escola Maria Stela de Novaes moldavam-se como um padrão inevitável. Não era um caminho escolhido por mim, mas um destino diário conduzido pela necessidade. Dentre tantos colegas que compartilhavam o trajeto, a Jaque começou a se destacar. Era a terceira série, e nós já nos reuníamos em pequenos “bandos” para ir e voltar da escola. Cada um seguia seu rumo ao final do trajeto, mas até então, caminhávamos juntos, construindo uma rotina que, sem perceber, marcaria a memória. Chegávamos à minha rua, e enquanto eu descia para a Rua da Vitória, em algumas ocasiões, acompanhava Jaqueline até a entrada da sua casa. Nunca conheci seus…
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A Glória que Transborda: Uma Experiência com o Espírito Santo
Aquela energia indescritível, um poder que não se limita à compreensão humana, brota do coração e percorre cada célula do corpo, da cabeça até a ponta dos pés. É um poder que não nasce do esforço humano, mas da rendição absoluta ao Criador. Esse poder se manifesta com intensidade quando, com a boca e a alma em uníssono, proclamamos: Glória, Glória, Glória a Deus! Foi assim que o senti, em 2002, na Assembleia de Deus no bairro Primeiro de Maio. O culto estava cheio, mas, ao mesmo tempo, parecia que eu estava sozinho na presença do Senhor. Diante do altar, dobrei os joelhos. Era um gesto simples, mas cheio de…
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Tempestade de Luz: A Revelação do Beco e da Consciência
Era 2005, uma segunda-feira. O relógio marcava por volta das 11h30 da manhã, e o pequeno quarto no Bairro Cariaciquense estava tomado por uma luz intensa. O sol parecia ter descido para dentro da janela, oferecendo uma clareza que mais confundia do que revelava. As venezianas quebradas e os vidros soltos na janela balançavam ao sabor do vento, enquanto eu observava o beco à frente. Conseguia ver alguém, ou ao menos achava que via. Quem era? Não sabia. A luz ajudava, mas também atrapalhava. Há uma ironia no excesso de brilho: ele ofusca o que deveria revelar. Meus olhos corriam de um lado para o outro, exploravam cada canto. O…
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A Chuva que Conecta Mundos
A chuva desceu com uma força incomum, quente e salgada, como se fosse feita de sangue. Cada gota parecia carregar a intensidade de algo mais profundo, algo que vinha de dentro e escorria para fora. A luz que antes reinava cedeu espaço a uma penumbra densa, enevoada, onde os contornos das coisas desapareciam, e a identidade se dissolvia. Meus lábios se moveram, mas não em palavras. Era um balbuciar fraco, um sussurro sem forma. Meus olhos, agora vermelhos como brasas, ardiam, e algo quente descia pelo rosto, misturando-se à chuva. Não era apenas água; era sangue, emoção líquida que escapava sem controle. Um suspiro trêmulo ensaiou romper o silêncio, mas…
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A Memória Eterna de uma Mensagem
Era o ano 2000, e eu caminhava pelas ruas que marcavam os limites entre Pedra dos Búzios e Primeiro de Maio. Atravessar aquela ponte a pé, sentir o calor do meio-dia e ser abraçado pelo silêncio das ruas parecia mais um ato corriqueiro, um percurso que a rotina tornava automático. Curvei à direita, passei pela Igreja Batista que repousava à esquerda e segui adiante, imerso na banalidade dos passos. Não havia pressa, não havia grandes expectativas, apenas o caminho e o calor, que parecia querer se impregnar no ar e na pele. À frente, um caminhão FENEME descansava, dividindo a rua entre o fim e o começo de algo. E…
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Buracos no Caminho e na Rotina
Era o ano de 2001, e meu pai era responsável por um ponto de pregação em Paul, Vila Velha. Um lugar simples, escondido nos labirintos da periferia, onde a fé se erguia em meio a terrenos que exigiam mais do espírito do que do corpo. Para chegar àquela casa, passávamos por caminhos que o asfalto jamais tocara. Depois do viaduto principal, virávamos à direita, atravessávamos por baixo de um viaduto mais estreito e seguíamos adiante, em direção a um morro. O carro ficava para trás, pois dali em diante o trajeto pertencia apenas aos pés: uma trilha estreita, margeada pela mata, onde apenas uma pessoa podia passar por vez. Esse…
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Memórias da Adolfina e da Rota que Mudou
Era 1999, e eu estava na turma da então 8ª série da EEPG Adolfina Zamprogno. Sentava na frente, ao lado da Simone, uma menina inteligente e de conversa agradável. Naquele tempo, a sala de aula era mais do que um espaço de aprendizado; era um pequeno universo onde amizades, sonhos e descobertas compartilhavam o mesmo ar. Havia muitos colegas que marcaram minha vida: Márcio, que até certo ponto era meu “melhor amigo”, morava em Vila Garrido, numa casa à beira do morro, de onde se podia ver uma parte do bairro Pedra dos Búzios. Estive lá uma única vez. Era um lugar simples, mas a vista tinha algo de especial,…
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Renato e a Primeira Lição sobre a Fragilidade da Vida
Renato era o nome dele, meu colega de sala na primeira série do primeiro grau. Lembro-me de sua presença infantil, simples, tão parecida com a minha. A infância é um espaço de descobertas, mas também de ilusões, onde acreditamos que a vida é um fio inquebrável, imune às tragédias. Mas, em 1991, essa ilusão se desfez de forma abrupta e dolorosa. Foi em um dia qualquer, em casa, quando ouvi alguém falar, provavelmente minha mãe: “Renato morreu.” A frase, direta e sem alívio, me atingiu com um peso que eu, criança, não sabia carregar. Ele havia sido atropelado. Estava na rua principal do bairro Grande Vitória, pegando “ponga” na traseira…
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O Que a Vida Me Disse em Silêncio
Continuando a reflexão iniciada em Introdução às Ideias… Ontem prometi escrever sobre a vida.Hoje, percebo que é mais fácil prometer do que cumprir.A vida não se deixa traduzir facilmente. Ela não se entrega inteira a quem escreve, apenas oferece pistas, fragmentos, impressões. Pensei em falar da vida como um desafio, uma luta, um campo de batalhas. Mas isso seria só uma parte.Pensei em defini-la como dádiva, como presente. Mas isso também não basta.A vida é tudo isso e, ao mesmo tempo, é outra coisa, algo que nos escapa, mesmo quando acreditamos compreendê-la. O que a vida exige de mim?Talvez atenção. Talvez escuta.Talvez coragem para continuar mesmo sem saber por quê.Ela…






















