Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

  • Artes & Narrativas

    Por que Birdman

    Numa disciplina que pedia um ensaio sobre teatro e cinema, eu podia escolher qualquer filme. Escolhi Birdman. O filme é de Alejandro González Iñárritu, de 2014, e conta a história de Riggan Thomson, vivido por Michael Keaton. Riggan foi um ator famoso por interpretar um super-herói décadas antes, e agora tenta provar que é artista de verdade montando uma peça na Broadway, adaptada de um conto de Raymond Carver. Ele quer ser levado a sério. Passa o filme inteiro sendo perseguido por uma voz interna, a do personagem que o tornou famoso, que repete que ele é irrelevante, que ninguém liga, que aquilo tudo é patético. E, na cena mais…

  • Educação & Cuidado

    A noite toda

    Mestre Calú conta, numa entrevista, que não se brincava mamulengo por duas horas. Brincava-se a noite toda. Cinco horas ou mais. E ele sublinha, como quem constata uma perda, que meia hora é o que virou, e que meia hora foge da normalidade da brincadeira. Escrevi na minha resenha que isso é quase inconcebível para a nossa sociedade urbana. E é. Mas levei quatro anos para entender por que era possível antes. Não era resistência. Era estrutura. Ninguém aguenta cinco horas de espetáculo. Ninguém nunca aguentou. O que permite atravessar a noite inteira é não estar assistindo. Foi o que escrevi sem desenvolver: não se assiste ao teatro de mamulengo,…

  • Filosofia & Teologia

    A gramática e o poeta

    Numa resenha sobre teatro de bonecos, escrevi uma analogia que corrige uma coisa que venho dizendo há dez anos. A técnica, no teatro de formas animadas, funciona como as regras da gramática funcionam para o poeta. O poeta precisa dominar a gramática para conseguir o que pretende. Mas se ele não tem o que dizer, o instrumento gramatical fica estático. E completei: a gramática é seca e rígida, mas quando o espírito se manifesta dentro dela, a dinâmica traz singeleza e leveza. Isso contradiz, ou pelo menos complica, quase tudo o que eu venho escrevendo sobre forma. Em 2013 escrevi que o perigo dos modelos de gestão é a forma…

  • Artes & Narrativas

    O boneco está na sala

    Escrevi, num comentário de disciplina sobre teatro de formas animadas, uma frase que continuo achando a coisa mais precisa que já disse sobre arte: O objetivo não é tirar as pessoas da realidade e transportá-las para um mundo fictício. É fazer o caminho inverso: trazer o mundo fictício para dentro da realidade das pessoas. Formas animadas é o nome técnico do teatro de bonecos, de objetos e de sombras. E é a única linguagem cênica em que essa inversão é literal. Porque o boneco está na sala. Ele não é imagem de um boneco. É um objeto físico, com peso, feito de pano ou madeira, que ocupa espaço no mesmo…

  • Filosofia & Teologia

    O diagnóstico de 2001

    Escrevi, num trabalho de licenciatura em Teatro, que os jogos entraram em decadência por causa da urbanização. Que os espaços foram se limitando, que ficaram escassos, e que a rigidez urbana torna escassa a criatividade. A fonte era um texto de 2001. E eu reproduzi aquele diagnóstico em 2022 sem reparar que ele tinha vinte e um anos e que, no meio do caminho, aconteceu outra coisa. O argumento do espaço está certo e continua valendo. A criança que tinha rua não tem mais. O quintal virou vaga de garagem. A quadra virou condomínio. Onde eu enterrei uma formiga numa caixa de fósforos hoje provavelmente há concreto. Mas isso explica…

  • Artes & Narrativas

    Três refletores

    No projeto de iluminação que entreguei, escrevi uma frase que serve para quase tudo: É necessário estabelecer uma diferença entre o que é proposto como ideal e o que é possível. Nem sempre o ideal para iluminação será possível para realização. O ideal, ali, seriam projetores elipsoidais, que produzem foco definido e recorte limpo. O possível eram três refletores improvisados de cem watts, extensões elétricas puxadas até onde desse, e uma base montada para que alguém pudesse acender e apagar na hora certa. E foi com isso que projetei a cena. O que me interessa, relendo, não é a precariedade. É o que eu fiz com ela. Não escrevi um…

  • Artes & Narrativas

    Sitiado por livros

    Entro no quarto e sou imediatamente sitiado por livros. No centro do meu comando repousa uma cadeira de rodinhas, despojo de algum escritório comercial, hoje convertida em memória enferrujada. Os braços descascados denunciam o peso das horas, e o encosto rasgado revela o que já não tem forças para sustentar. Diante dela, dois monitores que brilham como janelas, vigiados por duas webcams, olhos eletrônicos de azul e vermelho que me encaram com o silêncio atento das máquinas. Neste gabinete, as paredes deixaram de ser alvenaria. Tornaram-se muralhas de pensamento empilhadas que cercam o horizonte. Acima, instrumentos repousam em estojos mudos, e basta um olhar para que o jazz de Nova…

  • Educação & Cuidado

    As três matrizes

    Num trabalho da licenciatura, escrevi que a Base Nacional Comum Curricular apresenta a arte como área que dá acesso às matrizes culturais brasileiras, e que essas matrizes são três: a indígena, a africana e a portuguesa. E escrevi a parte que importa: Não se deve ficar apenas no passado. É preciso relacionar com o presente e identificar as formas de expressão dessas matrizes na contemporaneidade. Está certo, e é a diferença entre ensinar cultura e embalsamar cultura. A escola brasileira sabe falar das matrizes no pretérito. Indígena aparece no descobrimento, africano aparece na escravidão, português aparece na colonização, e as três ficam trancadas no século dezenove, como se tivessem produzido…

  • Educação & Cuidado

    O nome que falta

    Num trabalho de licenciatura, discorri sobre interseccionalidade ao longo de várias páginas, apoiado numa única autora brasileira que resumia o conceito. Escrevi que a interseccionalidade é uma ferramenta criada para identificar o racismo. Está pela metade, e a metade que falta é justamente a que dá nome à coisa. O termo foi cunhado em 1989 por Kimberlé Crenshaw, jurista negra estadunidense, num artigo sobre um caso concreto. Trabalhadoras negras processaram uma montadora por discriminação e perderam, porque o tribunal analisou o caso em dois eixos separados. Para discriminação racial, olhou os homens negros da empresa, que estavam empregados. Para discriminação de gênero, olhou as mulheres brancas, que também estavam. E…

  • Filosofia & Teologia

    A cura pela fala

    Estou estudando psicanálise, e a primeira coisa que o material diz é isto: Os seres humanos tendem a falar sobre seus problemas. É natural procurar alguém de confiança quando algo nos aflige. Às vezes pedimos conselho, mas muitas vezes queremos apenas nos sentir ouvidos e compreendidos. E a terapia acontece fazendo com que a pessoa fale. Parei nessa frase por um tempo. Porque a disciplina inteira, desde Freud, se apoia numa premissa que a minha vida passou quarenta anos contrariando: a de que as pessoas falam. Eu não falo. Não falei à menina de treze anos, diante do espelho, que ela estava bonita. Não falei às moças do culto, durante…