-
A pasta do meu pai
Eu busco. E, quando olho para trás, percebo que essa fome já me habitava desde a infância. Sentado no quintal de casa, no bairro Grande Vitória, eu brincava sobre o chão de areia que meu pai e minha mãe carregaram em baldes, suor após suor. Eles transformaram o presente do meu bisavô, um terreno que outrora fora apenas manguezal, em solo firme. De carrinho em carrinho, o barro moldou-se em quintal, e o quintal tornou-se o meu mundo. Foi ali, sobre aquele aterro recém-nascido, que eu comecei a buscar. Procurava algo que a minha idade não sabia nomear. A palavra executivo, não sei de qual rádio, conversa ou intuição ela…
-
Deuses efêmeros de bairro
O calendário marcava um dia de junho na década de 90, provavelmente um sábado, quando a luz do fim de tarde já começava a fraquejar. O cenário era a rua da casa da minha avó, que, na geografia dos meus afetos daquela época, eu reconhecia apenas como o domínio da minha tia Preta. Bem ali, rasgando o meio da rua e desafiando a pacatez do bairro, ergueram um palco improvisado. Dois homens faziam a passagem de som. Para um menino que nunca havia estado diante de uma estrutura daquelas, não se tratava de um punhado de madeira e cabos: era um altar profano que parecia ter caminhado até mim. Faltavam…
-
O cansaço do escuro
A rejeição é uma ferida que se recusa a sangrar. É uma pedra invisível atirada contra o peito, cujo impacto não deixa hematoma na pele, mas provoca um estrondo que reverbera na alma. Rejeitar é um ato. Ser rejeitado é um abalo sísmico. São duas margens de um mesmo abismo, e os abismos internos são irreconciliáveis. O primeiro raramente tem a dimensão do peso que acaba de depositar no outro. O segundo é reduzido a objeto descartado, exilado sem direito a sentença, sem a dignidade de uma palavra. Contudo, esse abalo não brota no vácuo. A rejeição só floresce no exato solo onde antes havia a intenção de permanecer, de…
-
Missionário das minhas memórias
Há sentimentos que se expressam por meio de uma exatidão inexata. São precisos na própria imprecisão, atuando como um lastro que se expande e rouba o oxigênio, desfocando os nossos limites. É um estado que resiste aos rótulos, embora exista de forma concreta na sua abstração. Refiro-me ao vazio. Não aquele nada simples e oco, mas uma matéria escura, profunda e inevitavelmente presente. O vazio jamais poderia ser definido como mera ausência, porque ele é. Possui arquitetura própria na ausência de forma. É o ser do não-ser, aquilo que Parmênides proibia e que Sartre veio autorizar: uma presença que ganha potência justamente pela recusa obstinada em desaparecer. E é no…
-
A ansiedade como resultado
No meu mestrado, medi a ansiedade tecnológica de 446 servidores diante do sistema eletrônico de ponto. Dois resultados apareceram, e os dois foram confirmados estatisticamente. Quanto maior a ansiedade, menor o uso do sistema. E quanto maior a ansiedade, maior a percepção de dificuldade para usá-lo. Também apareceu, na análise por subgrupos, que as servidoras relataram níveis um pouco mais altos de ansiedade que os servidores. Escrevi, na conclusão, que esses achados destacam a necessidade de suporte técnico e treinamento adequados para mitigar esses sentimentos e facilitar a transição para o novo sistema. Ou seja: encontrei ansiedade e recomendei tratá-la para que a adesão aumentasse. Hoje eu leio de outro…
-
Uso público, uso privado
Resumi para uma disciplina o texto em que Kant pergunta o que é o esclarecimento, e errei justamente a parte que fala de mim. Escrevi que o uso público da razão é a exposição pública do pensamento crítico, e que o uso privado envolve interesses individuais e busca de sobrevivência. Não é isso, e a inversão apaga o que há de mais interessante ali. Para Kant, uso público da razão é o que alguém faz na condição de sábio, escrevendo diante do público leitor. Esse uso deve ser inteiramente livre. Uso privado é o que a pessoa faz dentro de um cargo que lhe foi confiado. E esse pode ser…
-
Levantar da cadeira
Em 2022, num relatório de estágio, escrevi uma frase sobre Augusto Boal que hoje me parece uma confissão. Escrevi que percebi no Teatro do Oprimido uma joia experiencial. E completei: não pude utilizar na minha experiência explícita, mas somente, até o momento, imaginativa. Uma joia que eu só consegui imaginar. O Teatro do Oprimido tem uma premissa única, e ela é radical: acabar com a separação entre quem atua e quem assiste. Boal chamava de espect-ator a pessoa que estava na plateia e se levanta. A cena mostra uma opressão, e o público não aplaude nem discute: alguém entra em cena, substitui o oprimido e tenta outra saída. O método…
-
Vinte e cinco minutos
Em 2022 assisti a uma entrevista com um mamulengueiro e escrevi uma resenha. Aprendi ali que o mamulengo não se aprendia em oficina, que a transmissão era oral e prática, que se brincava a noite inteira e não duas horas, e que o mestre dizia precisar de um filho para tomar conta da arte quando partisse. E escrevi, com todas as letras, que a oficina toma o lugar da naturalidade transmissiva, entra numa matriz curricular e deixa a arte um pouco enlatada. Em 2023 eu escrevi um plano de aula sobre teatro de bonecos populares. Quatro aulas de sessenta minutos. Na aula dois, os alunos confeccionam bonecos. Tempo previsto para…
-
A coragem dos lúcidos
Há, na matemática dos valores humanos, uma equação que subverte os números. Não porque uma pessoa valha mais que outra, mas porque aquilo que uma pessoa carrega pode fazer o que muitas, sem aquilo, não conseguem fazer. Um indivíduo armado de esperança realiza o que três desesperançados não realizam. A esperança não é otimismo passivo: é o sopro que move a engrenagem. Enquanto quem desistiu apenas sedimenta o chão do imobilismo, quem ainda crê ergue-se como um farol no nevoeiro. O mesmo vale para o propósito. Um com projeto de vida chega onde quatro à deriva não chegam. A vida sem direção é um barco refém do tédio, e o…
-
Coma induzido
Por entre as camadas silenciosas de um tempo que se foi, carrego a memória de uma voz que não morreu, mas foi sufocada. Sob o peso de ventos contrários e incertezas que se infiltraram no cotidiano, vi a minha liberdade de escrita encontrar a sua primeira barreira. Não eram muralhas intransponíveis, mas um desânimo frio que, pouco a pouco, fez vacilar a chama das minhas convicções. Foi assim que o Ideias para a Vida, que até então era o meu refúgio e o campo onde os meus pensamentos brotavam, mergulhou em um coma induzido. Essa hibernação não silenciou apenas as páginas digitais, mas o meu próprio espírito. O hiato foi…


























