Psique Humana
Artes & Narrativas
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Memórias de Carros e Família Capixaba
A memória é uma máquina do tempo movida a cheiro de estofado antigo e o brilho do sol batendo em lataria recém-lavada. Para quem viveu o Espírito Santo dos anos 90, a felicidade tinha quatro rodas e nomes que soavam como música. O asfalto da rua principal do bairro Grande Vitória parecia maior naqueles dias. Talvez fosse a perspectiva da infância, ou talvez fosse a presença imponente do Corcel II do Tio Mário. O carro não era apenas um meio de transporte; era uma extensão da personalidade dele. Quando a porta batia com aquele som metálico e seco, o mundo lá fora ficava mudo. Pelo vidro, a paisagem do bairro…
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Porta de saída, porta de encontro: o pastor e a minha adolescência de fé
Quando nos mudamos para Pedra dos Búzios, em Vila Velha, eu estava no início da adolescência. Comecei a frequentar a Primeira Igreja Batista de Primeiro de Maio (PIBPM). Depois da primeira visita, continuei indo: às vezes na Escola Bíblica Dominical, outras nos cultos de meio de semana e nos domingos. Quase parecia já um membro. Aos poucos, porém, fui deixando de ir. Tínhamos uma vizinha chamada Eni, casada com o Seu Francisco, a quem chamávamos, com carinho, de Titico. Ambos já idosos à época, por volta dos sessenta e poucos. Eni era uma senhora bonita, de pele clara, cabelos grisalhos, mais para o branco do que para o preto, e…
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A Faca, o Sangue e o Céu no Quintal
Irmãos. Essa palavra ressoa em meus ouvidos com um peso que só o tempo pode moldar. Quando criança, ela era quase abstrata para mim, algo grande demais para abarcar. Mais pesado ainda era o singular: irmã. Um sonho infantil meu era ter um irmão, alguém da minha idade. Mas o que papai e mamãe me deram foi algo diferente. Uma irmã, sete anos mais velha. É curioso pensar quem foi oferecido a quem: ela a mim, ou eu a ela? A lógica aponta que eu fui dado a ela, um pequeno presente para completar o seu reino. O que significa ter uma irmã sete anos mais velha? Para mim, naquela…
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O Salmo 23 e a Lição de Fé no Corredor do Hospital
Era quase meia-noite. Saímos do culto e fomos direto para o hospital. Minha mãe e eu. Não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas já me acostumava a essa rotina que parecia maior do que eu. O hospital era um lugar frio, e o branco de suas paredes me dava medo. Caminhava nos braços de minha mãe, olhando ao redor para rostos cansados e olhares baixos, silêncios que ecoavam mais do que palavras. Não gostava daquele lugar onde todas as crianças pareciam doentes, onde eu era apenas mais uma entre tantas. Apesar de tudo, havia algo que tornava a ida ao hospital suportável: a volta. Ao voltarmos para casa,…
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O Peso da Palavra e a Aula que Silenciou
Como é bom o tempo de escola. Um tempo em que a maior preocupação era não ter preocupações. Mas aprendi, mesmo cedo, que quem não tem, sempre encontra. Eu encontrava na escola um lugar de fascínio, um universo onde a curiosidade era o ingresso para mundos que eu não conhecia. Sempre gostei de aprender, de sentar perto de quem sabia mais do que eu e beber da fonte do conhecimento. Que delícia era ouvir os professores falarem, compartilhando não apenas lições, mas fragmentos da vida. Acordava ansioso para chegar à sala de aula. Cada manhã era uma promessa de descoberta. Triste era quando as férias chegavam, trazendo uma pausa forçada…
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Entre a Imaginação e a Realidade: O Prego que Marcou
O céu estava azul. Algumas nuvens espalhavam-se pelo horizonte, pintando aquela tarde com um toque divino. Meu pai trabalhava fora, enquanto minha mãe, em sua labuta doméstica incansável, parecia nunca parar. Ela acordava antes de todos e só encontrava repouso muito depois que meu pai. Suas mãos moldavam o dia, enquanto meu universo infantil se desenrolava no quintal de nossa casa. Era um quintal vasto, um território onde cada grão de areia parecia ter uma história. Minha brincadeira favorita era contá-los, sem pressa, sem compromisso, apenas acompanhando a cadência da minha imaginação. Era um mundo só meu, um espaço onde o possível e o impossível se misturavam. Nessa vastidão, encontrei…
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Cascalhos da Infância: Uma Lição de Perdão
Brincar com meu primo Rafael era uma das maiores alegrias da minha infância. Nossa conexão era natural, simples, como se fôssemos feitos para entender e completar as aventuras um do outro. Mas, como em toda convivência, às vezes as coisas saíam do trilho, e foi em uma dessas ocasiões que aprendi uma lição que jamais esquecerei. Era um dia como tantos outros no quintal de casa, no bairro Grande Vitória. Estávamos ao lado da banheira velha que usávamos como “mar”, um pequeno oceano alimentado pela nossa imaginação. A banheira ficava perto do muro que fazia divisa com a casa do Rafael, e aquele pedaço de quintal, com seu chão de…
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As Primeiras Pedaladas: Entre o Amparo e a Liberdade
Lembro com clareza do dia em que meu pai chegou em casa com uma bicicleta Monark verde e preta, novinha em folha. Ela era linda, brilhava à luz do sol, como se carregasse consigo a promessa de aventuras que ainda não conhecia. Para uma criança, ter uma bicicleta nova era como receber as chaves para um mundo maior, um mundo que se estendia além do quintal de casa. Mas, antes de conquistar esse mundo, havia um desafio: aprender a pedalar. No quintal de nossa casa, no bairro Grande Vitória, o chão era coberto de areia. Um terreno improvisado, mas perfeito para as primeiras lições. Meu pai, com sua paciência inabalável,…
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O Choro do Meu Pai: Quando a Dor Visita os Fortes
Era uma manhã comum, ou pelo menos parecia ser. Estava sentado no tapete da sala, olhando ao redor com o olhar curioso e atento de criança. À minha esquerda, a estante com o aparelho de som repousava imóvel, como um guardião silencioso. Daquele ângulo, podia ver a porta, uma parte do meu quarto, o quarto dos meus pais e o corredor que levava à copa. Tudo parecia em seu lugar, um retrato de normalidade que logo seria interrompido. Foi então que ouvi um som inesperado. Um choro. Mas não era um choro qualquer, era potente, profundo, o tipo de choro que carrega o peso de algo irreparável. Virei a cabeça…
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Jesus Menino: O Hospital que Acolheu Minha Infância
Meu sonho inicial era ser médico. Não, não era pelo status ou pelo dinheiro, nem mesmo por qualquer razão fútil que o mundo costuma impor como justificativa. Meu sonho era médico porque, em algum momento da infância, descobri o poder curativo do cuidado, o peso das mãos que tratam feridas, aliviam dores e trazem esperança a quem sofre. Esse sonho nasceu em um hospital, entre paredes brancas, camas de ferro e lençóis dobrados de maneira impecável. Quando criança, passei um tempo significativo internado. Não era apenas um hospital; era um espaço entre o medo e o alívio, onde as horas ganhavam um peso diferente. Ao lado do Hospital Infantil de…

























