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Último Dia em Primeiro de Maio
Lá no bairro Primeiro de Maio, eu tinha entre dezesseis e dezoito anos. Foi a última vez do meu pai como pastor daquela pequena igreja; saímos, e meu coração pesou. No derradeiro culto, percebi que o de Paulinha também pesou: as lágrimas vieram, só então. A história começara uns dois anos antes. Paulinha era uma adolescente que ia à igreja mais pelos pais do que por si. Não era firme. Chegava com a mãe e o pai, já idoso à época; a mãe, mais nova, também senhora. Ela se aflorava, como eu. Naquele tempo, não havia professor para a Escola Bíblica Dominical; escolheram-me, não por vocação, mas por falta de…
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O Medo e a Liberdade Divina
Jesus, em suas palavras revolucionárias, declarou que veio para libertar os cativos, para oferecer uma esperança que dissolveria as correntes invisíveis que prendem o homem ao mundo e a si mesmo. Ele trouxe uma liberdade que confronta e desafia o medo, uma liberdade que transcende a ordem do tangível e convida o ser humano a um novo tipo de vida — uma vida de confiança que não repousa em posses ou seguranças mundanas, mas na presença contínua do divino. A liberdade que Jesus concede não é meramente a ausência de restrições terrenas, mas uma transformação radical operada pelo Espírito Santo. Trata-se de uma liberdade ancorada na ação do próprio…
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Acreditar no Impossível: A Fé que Desafia a Realidade
Há uma crença entre os religiosos, quase um axioma, que insiste: “Devemos acreditar no impossível.” Dizem isso com convicção, como uma verdade que ultrapassa a razão. Mas o que acontece quando nos deparamos com a necessidade de tornar essa crença em ação viva? Quando a fé deixa de ser um discurso leve e nos atinge com a força do que realmente desafia nossa capacidade de acreditar? É uma tarefa fácil, quase trivial, falar de fé ao outro. Exortar alguém a confiar naquilo que não vê, a abraçar a ideia do impossível, é um exercício seguro quando estamos de fora. Sugerir ao próximo que tenha fé e que confie…
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Ela Vem: O Mistério que Habita o Coração
Ela vem silenciosa, mas com a força de quem sabe exatamente onde se estabelecer. Surge desde a infância, insinuando-se entre os primeiros olhares e descobertas, quando o mundo ainda é vasto, novo, cheio de promessas e mistérios. Ela não escolhe uma única forma — aparece em todos os rostos e em todos os corpos, seja branca ou morena, magra ou cheia de curvas. Ela é livre, desafiando padrões, sendo ao mesmo tempo comum e incomum, singular e universal. Como uma brisa que chega sem pedir permissão, ela atravessa o tempo e deixa uma marca que não se desfaz. Ela é a sensibilidade da razão, um paradoxo que encanta, pois une…
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Super Controlado
Há muitas coisas que são maiores do que a nossa palavra. Não no sentido da grandiosidade que intimida, mas no sentido da evidência que dispensa o discurso. Quando algo é tão claro, tão presente, tão imanente que nomear pareceria diminuir, que dizer pareceria reduzir o que apenas pode ser contemplado. Ela estava ali, de frente ao espelho, e o que havia para ser dito transcendia a minha autoridade de dizê-lo. As palavras que eu poderia oferecer seriam menores do que o objeto que descreviam. Então fiquei em silêncio, não por indiferença, mas por uma forma torta e não comunicada de reverência. Ela interpretou como desinteresse. O guarda-roupa era de madeira…
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O Chocolate Curvado
Há uma forma de presença que não é desejo. Ou melhor, é desejo, mas domesticado por algo maior que ele. Governado. Conduzido pela mão firme do respeito, da responsabilidade, da consciência de que certas distâncias não existem para ser vencidas, mas para ser honradas. E há uma nobreza específica nesse tipo de contenção, não a nobreza fácil de quem não sente, mas a nobreza difícil de quem sente e mesmo assim escolhe não avançar. Não era aversão. Era precisamente o oposto. Era o temor que nasce da estima, esse medo delicado de comprometer o que existe pelo que poderia existir. A fala era pouca. O trato, cuidadoso. A conduta permeada…
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O Peso da Âncora e a Linha do Horizonte
A luz fraca da luminária de mesa iluminava apenas o centro da prancheta de Elias, deixando o resto do escritório mergulhado nas sombras de um ano que já havia terminado, mas que teimava em não ir embora. Era meados de janeiro. Lá fora, o mundo falava sobre recomeços, resoluções e novas dietas, mas a mente de Elias estava ancorada no fracasso de novembro: a falência de sua pequena construtora. Ele passava os dias revisando os mesmos contratos antigos, procurando o erro exato, a vírgula fora do lugar que havia desmoronado seus planos. O passado havia se tornado sua residência permanente. Foi durante uma dessas madrugadas insones que um vento frio…
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Memórias de Carros e Família Capixaba
A memória é uma máquina do tempo movida a cheiro de estofado antigo e o brilho do sol batendo em lataria recém-lavada. Para quem viveu o Espírito Santo dos anos 90, a felicidade tinha quatro rodas e nomes que soavam como música. O asfalto da rua principal do bairro Grande Vitória parecia maior naqueles dias. Talvez fosse a perspectiva da infância, ou talvez fosse a presença imponente do Corcel II do Tio Mário. O carro não era apenas um meio de transporte; era uma extensão da personalidade dele. Quando a porta batia com aquele som metálico e seco, o mundo lá fora ficava mudo. Pelo vidro, a paisagem do bairro…
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Quando as tardes pegavam fogo em oração: memórias do Círculo de Oração com minha mãe
Cresci no Evangelho. Desde as minhas primeiras lembranças, minha mãe pertence ao Círculo de Oração. Foi nesse ambiente que fui formado: entre vozes de mulheres simples, mas cheias de Deus, que se reuniam para interceder quando muitos sequer sabiam o que era oração. Quando eu tinha por volta de cinco anos, o poder de Deus era visível na vida da minha mãe. Lembro-me nitidamente de uma tarde na Assembleia de Deus em Estrelinha, perto do campinho. Eram por volta das quinze horas. Minha mãe, junto com outras irmãs, estava no Círculo de Oração. Havia no ar algo que não era apenas emoção religiosa: um peso de glória, uma atmosfera de…
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Porta de saída, porta de encontro: o pastor e a minha adolescência de fé
Quando nos mudamos para Pedra dos Búzios, em Vila Velha, eu estava no início da adolescência. Comecei a frequentar a Primeira Igreja Batista de Primeiro de Maio (PIBPM). Depois da primeira visita, continuei indo: às vezes na Escola Bíblica Dominical, outras nos cultos de meio de semana e nos domingos. Quase parecia já um membro. Aos poucos, porém, fui deixando de ir. Tínhamos uma vizinha chamada Eni, casada com o Seu Francisco, a quem chamávamos, com carinho, de Titico. Ambos já idosos à época, por volta dos sessenta e poucos. Eni era uma senhora bonita, de pele clara, cabelos grisalhos, mais para o branco do que para o preto, e…



























