• Filosofia & Teologia

    A casa varrida

    As Escrituras denunciam práticas de adivinhação e consulta aos mortos, e o livro de Isaías é explícito quanto a isso (8:19; 19:3). Vale uma precisão de vocabulário: a expressão traduzida como “espíritos familiares” verte o hebraico ‘ôb, que designa o espírito consultado por médiuns, e não espírito de família. O português sugere uma parentela que o original não afirma. Ainda assim, permanece a questão pastoral que a Igreja enfrenta há séculos: por que certas famílias repetem, geração após geração, os mesmos padrões de ruína? Há repetição observável no próprio texto bíblico. Abraão apresenta a esposa como irmã para se proteger, e Isaque faz exatamente o mesmo, no mesmo tipo de…

  • Artes & Narrativas

    O primeiro respiro

    Eu sou aquele ar que silenciosamente se aloja em teus pulmões, o fôlego concedido como um presente invisível. Torno-me o teu primeiro respiro ao emergires à superfície, no instante em que a vida clama e te puxa de volta ao mundo. Sou o suspiro que traz alívio ao peito, a substância que, ao ser absorvida, funde-se à tua própria carne. Quando os teus lábios rompem a água em uma busca desesperada por oxigênio, sou eu quem preenche a tua vontade de viver. Ajo como aquele descanso sutil que passa despercebido na mecânica natural da tua respiração. Não precisas notar a minha presença para que eu continue ali, nutrindo a tua…

  • Artes & Narrativas

    A porta jamais se tranca

    Adentrei o abismo onírico como quem capitula diante do desconhecido, cruzando o limiar de uma porta colossal de madeira envernizada, cujo toque carregava a textura do tempo esculpido. Do outro lado, uma névoa espessa e acinzentada espraiava-se, cobrindo o horizonte. Por um instante, as minhas retinas não captaram nada além da vastidão difusa. Mas um vulto cruzou o espaço, e um vento de cadência grave começou a erguer as cortinas de neblina. À medida que a ventania varria o cenário, a topografia emergia. Eu estava diante de um universo que parecia ser forjado no exato instante em que eu o contemplava. Fendas abissais e picos vertiginosos, rios que serpenteavam rumo…

  • Filosofia & Teologia

    O útero do silêncio

    A articulação da voz é um rito, uma arte capaz de costurar abismos. Cada sílaba que soltamos no ar funciona como extensão física de quem somos, uma radiografia do que carregamos no peito. Quando verbalizamos um pensamento, damos contorno àquilo que até então era apenas um fantasma na mente. O verbo é, na raiz, um gesto de gênese: a capacidade de moldar o invisível e erguer realidades que jamais existiriam sem o sopro da nossa voz. Contudo, romper o silêncio cobra um preço. É uma responsabilidade que exige compreender a balística de cada som que emitimos, porque o impacto não reside apenas no conteúdo, mas na forma. As nossas sentenças…

  • Filosofia & Teologia

    A assimetria humana

    Um afeto desenhado na sua totalidade, pleno, exposto ao mundo na sua força mais crua e, ao mesmo tempo, na sua maior vulnerabilidade. Um sentimento transbordante, regado por uma paixão que aparenta ignorar a finitude. Mas seria essa completude sustentável? O perigo de atingir o ápice é a vertigem do vazio que se abre logo em seguida. A inquietude espreita, e o vício pela perfeição transforma-se em um labirinto onde o sentimento, pesado de tão completo, paralisa-se. Torna-se uma estátua de mármore: fria, irretocável e mortalmente inflexível diante do tempo. Há um terror subjacente nessa utopia romântica que não admite falhas e que exige um estado de êxtase permanente. A…

  • Artes & Narrativas

    Desprovido de pontes

    Estou posicionado do outro lado da margem, desprovido de pontes, contemplando um horizonte que se recusa a ser alcançado. É uma fronteira difusa onde o desejo pulsa, mas permanece represado. Trata-se do vislumbre de um amanhã que acena com a promessa de afeto e de uma liberdade que transcende o movimento geográfico, revelando-se como quietude interior. Habita em mim o paradoxo de querer voar e, ao mesmo tempo, de me recolher. Desejo desbravar rotas desconhecidas, mas sinto a urgência de proteger o que me resta de mais íntimo. Contudo, esse horizonte, por mais carregado de promessas que se apresente, torna-se obsessão. É um sonho que se dilacera ao menor toque,…

  • Filosofia & Teologia

    Uma vírgula de Deus

    Planejo. Estudo. Grito. Vou. Cada ação é um passo calculado, um avanço cego em direção ao que eu imagino ser a linha de chegada. Mas não alcanço o porto que desejo. O meu olhar perde-se na neblina entre os sonhos concretos e as miragens. Cada movimento que executo é um eco da minha ambição, uma busca que pulsa nas veias e insiste em dissolver-se ao menor toque. Sonho. Olho. Fito. Avanço. Em cada nova tentativa acende-se uma faísca de esperança, uma explosão breve de fé na quebra do impossível. Mas a realidade impõe-se como um muro de concreto. Não realizo. Persisto. Insisto. Não desisto. Lanço-me com fervor ao campo dos…

  • Educação & Cuidado

    Obesidade de informações

    Quem partilha da minha rota conhece o meu vício mais enraizado: a paixão por aprender. Não falo da absorção rasa e utilitarista de informações que a modernidade nos empurra goela abaixo. Refiro-me ao aprendizado vertical, àquele mergulho em que cada texto é dissecado para pavimentar a construção de um saber denso. E, sim, eu leio muito, mas a maturidade me ensinou uma verdade dura: volume não é sinônimo de profundidade. É vital ler bem, de forma combativa, atacando as palavras com a fome de quem deseja desvendar a espinha dorsal daquilo que se oculta nelas. Foi no meio dessa busca que uma recomendação ouvida no programa do professor Olavo de…

  • Filosofia & Teologia

    Rascunhos de nós mesmos

    Desbravar a existência é um ofício reservado aos corajosos, àqueles que se dispõem a tatear as margens do desconhecido com o peito desarmado. Viver não pode ser reduzido a um reflexo mecânico de passos automáticos e agendas cumpridas. É uma travessia irretornável. E, no meio dessa travessia, esbarramos naquilo que somos, ou naquilo que nos convencemos ser. Fugimos da realidade construindo um exílio autoimposto, uma fuga anestésica que nos treina para ter pavor da verdade. Nós a procuramos, sim, mas trememos diante do que ela pode desenterrar. Caminhando como rascunhos de nós mesmos, carregamos a dúvida em estado latente: o que, afinal, estamos sendo? Será que esse eu que apresentamos…

  • Filosofia & Teologia

    Fechar as portas de fora

    O inverno é o lembrete de que o tempo não governa apenas a folhinha do calendário. Nos dias mais frios, a cronologia veste-se de quietude. É um repouso forçado que nos convida a fechar as portas de fora e abrir as de dentro. A memória é o cofre da existência, o terreno onde as horas deixam as suas cicatrizes, gravando rostos, instantes e assombros que esculpem a nossa identidade. Pensamos e sentimos dentro dessa linearidade, e as emoções, embora tentem aninhar-se no presente, são invariavelmente atravessadas pelos rastros de um passado que recusa o silêncio. Qual seria, então, a saída? A sabedoria ensina que o segredo não é a evasão,…