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A Música e a Infância: Uma Sala, um Som, e o Tempo que não Corria
Na sala de minha casa, no segundo andar, no bairro Grande Vitória, o relógio não era um adversário. O tempo não tinha pressa, as horas não eram perseguidas, e a ansiedade, essa palavra tão comum agora, não existia. Naquele espaço, onde o simples reinava, a vida acontecia com a leveza de um disco girando no aparelho de som. O toca-discos era um dos objetos mais valiosos da casa, um verdadeiro altar da memória sonora. Lá estavam os LPs evangélicos, discos que não sei se papai e mamãe compraram ou ganharam, mas sei que estavam ali, preenchendo aquele ambiente com hinos que ecoam até hoje em mim. Era uma sala comum,…
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Jesus Menino: O Hospital que Acolheu Minha Infância
Meu sonho inicial era ser médico. Não, não era pelo status ou pelo dinheiro, nem mesmo por qualquer razão fútil que o mundo costuma impor como justificativa. Meu sonho era médico porque, em algum momento da infância, descobri o poder curativo do cuidado, o peso das mãos que tratam feridas, aliviam dores e trazem esperança a quem sofre. Esse sonho nasceu em um hospital, entre paredes brancas, camas de ferro e lençóis dobrados de maneira impecável. Quando criança, passei um tempo significativo internado. Não era apenas um hospital; era um espaço entre o medo e o alívio, onde as horas ganhavam um peso diferente. Ao lado do Hospital Infantil de…
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O Folheto no Vento
Transições são tempos de movimento e inquietação. Elas nos afastam do conforto do conhecido e nos lançam no turbilhão do incerto. Era exatamente assim que me sentia: desorientado, cheio de perguntas que pareciam ecoar sem resposta. Minhas orações eram constantes, mas os céus permaneciam silenciosos. Cada dia parecia um mergulho mais fundo em uma névoa de dúvidas e hesitações. Era uma tarde como tantas outras, mas que se tornaria inesquecível. Aproximadamente às quatro da tarde, eu caminhava pela calçada próxima ao Palácio Anchieta. O sol começava a inclinar-se, tingindo o céu de tons mais suaves, mas dentro de mim, não havia suavidade, apenas uma tempestade de pensamentos. Atravessava aquele espaço…
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Memórias na Piscina: O Reflexo do Passado
A adolescência é marcada por fases, por vezes intensas, que moldam nosso olhar para o mundo e para nós mesmos. Em minha adolescência, um dos lugares que mais amava frequentar era o Vitória Futebol Clube, um espaço que se tornou uma extensão da minha casa, quase como um santuário de descobertas e superações. Foi lá que me conectei com a natação, uma prática que abracei por dois ou três anos, graças ao programa da Secretaria de Esportes da Prefeitura de Vitória. Não era apenas um lugar para nadar; era um espaço onde construí memórias que ainda vivem em mim. As pessoas me conheciam ali, e essa familiaridade me fazia sentir…
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Executivo: A Imaginação Como Projeção do Futuro
Há momentos na infância que parecem insignificantes no instante em que ocorrem, mas, com o passar dos anos, ganham contornos quase proféticos. Lembro-me vividamente de uma tarde no quintal de casa, no bairro Grande Vitória. Um quintal que mais parecia uma pequena chácara, com espaços amplos que alimentavam minhas brincadeiras e onde a imaginação fazia morada. Ali, entre as paredes de alvenaria que seriam, no futuro, parte de uma piscina que nunca veio a existir, um episódio aparentemente simples se tornou uma marca em minha memória. Naquele dia, eu segurava uma pasta executiva que pertencera ao meu pai. Uma pasta robusta, de couro preto, que ele usava para carregar papéis…
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Caminhos Que se Cruzaram na Infância e se Recriaram no Tempo
A infância tem o dom de nos presentear com laços que, mesmo desfeitos pelo tempo, permanecem em nossa memória com a intensidade de algo que nunca se perdeu. Os primeiros amigos que fizeram parte da minha vida e circularam pela minha casa, cada um à sua maneira, moldaram um período de descobertas e aprendizados. Daniel, Ana Paula, Aline e Keila, nomes que carregam histórias compartilhadas, risadas inocentes e momentos que ainda ecoam na minha lembrança. Keila, com seu jeito determinado, era a mais marcante entre eles. Cresceu e se tornou policial, uma profissão que combina com o espírito firme que ela já demonstrava mesmo em suas brincadeiras de criança. Lembro…
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Primeiros Passos no Altar: Entre o Medo e a Superação
As primeiras pregações sempre deixam marcas profundas, gravadas como um selo no coração de quem as vive. Tenho a lembrança viva de quando, com apenas 10 anos, subi ao púlpito pela primeira vez para levar a mensagem principal. Foi no Morro dos Alagoanos, em um templo simples, ainda na parte de baixo da sede própria da igreja. Era 1995 ou 1996, e eu, tão jovem, sentia o peso da responsabilidade e a expectativa de falar sobre algo maior do que eu mesmo. Preguei sobre Jonas. A história daquele homem que tentou fugir de Deus parecia ecoar de forma simbólica no meu próprio coração. Eu não queria fugir, mas tremia diante…
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Marcas na Infância: Lições Entre Brincadeiras e Consequências
As tardes na rua eram repletas de risadas, correria e improvisos. Em frente à nossa casa, um espaço entre a minha e a dos meus tios Zeco e Maria, montávamos nossa “arena”. Ali, travinhas improvisadas e uma turma que hoje em dia ficou guardada mais na memória afetiva do que nos nomes. Mas alguns não se apagam: Rafael, meu primo; Josué; Gessé; Whashiton; e Lila. Lila era um garoto branco, magro, que frequentemente jogava sem camisa. Era habilidoso, mas, por vezes, passava dos limites. Em um dia que parecia comum, uma jogada brusca mudou o tom da brincadeira. Lila deu uma entrada dura no Rafael e, como se não bastasse,…
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Cicatrizes de Aço
Nos fundos do quintal do meu tio Zeco, próximo ao muro baixo que dividia nossa casa da casa da dona Marta, havia uma área de serviço, um espaço que se tornava palco de nossas brincadeiras. Naquele dia, uma fogueira dominava o cenário. Não me lembro ao certo o porquê de a fogueira estar lá, mas sua presença logo se integrou à imaginação fértil que movia minhas brincadeiras com meu primo Rafael. Brincávamos de espadas. Minha espada era uma barra de ferro arredondada, brilhante, que eu imaginava ser tão poderosa quanto as das histórias que povoavam minha mente. Movido por um desejo de torná-la ainda mais imponente, decidi introduzi-la no fogo…
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Ensaios da Realidade: O Funeral da Formiga
No quintal de casa, no bairro Grande Vitória, o palco era simples, mas cheio de possibilidades. Bastava uma formiga morta e uma caixa de fósforo vazia para que minha imaginação transformasse o ordinário em algo quase cerimonial. A brincadeira daquela tarde ensaiava um aspecto profundo da realidade: a despedida. A formiga, encontrada já sem vida, tornou-se o centro de um ritual. Peguei a caixa de fósforo e a transformei em um pequeno caixão. Cuidadosamente, coloquei a formiga dentro, fechando a tampa com um senso inesperado de reverência. Em seguida, comecei a escavar a areia do quintal, criando um buraco que serviria de sepultura. Era pequeno, proporcional ao tamanho do ser…



























