• Artes & Narrativas

    O caminho que atravessa

    Pode haver um impedimento no centro da sua jornada, um monólito silencioso e imóvel que surge sem aviso para interromper o fluxo do percurso. Drummond escreveu o poema mais conhecido da língua sobre uma pedra assim, e vale dizer o que ele faz com ela: nada. A pedra não é vencida, não é removida e não ensina. Ela fica, e o que resta é nunca esquecer que ela estava ali. Essa recusa é o próprio escândalo do poema. Diante da minha, escolho outra coisa. Se eu estagnar, ela permanecerá indiferente e inalterada. Se decidir encará-la como ferramenta de amadurecimento, o impedimento vira matéria-prima do caminho. O único modo legítimo de…

  • Filosofia & Teologia

    A qualidade das perguntas

    Spurgeon deixou um alerta incômodo: não desconfie de ninguém mais do que de si mesmo, porque trazemos os nossos piores inimigos dentro de nós. A trincheira mais hostil ao nosso avanço raramente é cavada pelas circunstâncias externas. É cavada pelos medos enraizados, pelas inseguranças crônicas e pelas limitações que nós mesmos nos impomos. Para desenhar um amanhã de escolhas intencionais, é preciso encarar o passado com a honestidade de um auditor. Esse exercício não deve ser um tribunal de culpa nem um poço de arrependimentos. Trata-se de um inventário, no qual rastreamos as trilhas que desbravamos e pesamos as consequências das nossas apostas. Exige um olhar imparcial, desidratado de vaidades…

  • Filosofia & Teologia

    Destituir a carência do trono

    Sentir pena de si mesmo é possivelmente o vício emocional mais letal que a alma pode cultivar. Ele nos aprisiona numa espiral onde, em vez de reconhecermos a solidez do que já construímos, ficamos hipnotizados pela miragem daquilo que julgamos faltar. Schopenhauer capturou isso nos seus aforismos: raramente pensamos sobre o que temos, mas sempre sobre o que nos falta. Essa tendência a focar na carência rouba o fôlego para habitar o presente e inviabiliza qualquer apreciação das vitórias cotidianas. A autopiedade canaliza os nossos holofotes mentais para as deficiências, tornando-nos cegos para as próprias forças. E paralisa: enquanto a mente se ocupa em lamentar a sorte, negligenciamos o imperativo…

  • Filosofia & Teologia

    Medir o oceano com uma régua escolar

    Em meio ao ceticismo contemporâneo, onde o afã materialista tenta confinar o real às fronteiras do tangível, ergue-se uma inquietação: seria possível, por vias puramente físicas, abarcar aquilo que é, por natureza, eterno? A ciência moderna, com toda a sua grandeza e utilidade inegáveis para examinar as engrenagens do mundo físico, exclui o sagrado porque o divino escapa aos recortes das suas observações. Isso não é falha do método: é o próprio método. Deus não é um objeto para ser dissecado em uma bancada de laboratório. Ele é a Fonte que sustenta o sujeito que O observa. Qual é o sentido de demandar prova material de uma Presença que atua…

  • Artes & Narrativas

    O prisioneiro é o carcereiro

    A existência exige, a cada batida de coração, a coragem de desbravar o incerto. Contudo, é frequente a nossa inclinação para o abrigo das sombras conhecidas, aquele espaço de dormência onde a falsa segurança rapidamente se transmuta em cárcere. Quando nos fechamos nesse panteão de hábitos, tornamo-nos nossos próprios carcereiros. Essa jaula do passado não é habitada apenas por lembranças. É o depósito onde medos, traumas e arrependimentos se amontoam, forjando barreiras que nos exilam do agora e do amanhã. E o peso dessas correntes é tal que a mera intenção não basta para rompê-las. Surge, então, a necessidade de um Libertador: uma força que venha de fora e alcance…

  • Filosofia & Teologia

    A paciência de um historiador

    Todos carregamos os germes da autodestruição, forças silenciosas que, deixadas à própria sorte, florescem em infelicidade. Esses impulsos manifestam-se como dúvidas crônicas, inseguranças latentes e a paralisia da autossabotagem. O fracasso raramente é um acidente de percurso: é a colheita de uma semeadura negligente. Ignorar os sintomas é permitir que pequenas ervas daninhas se transformem em árvores cujas raízes acabam por nos prender. O declínio raramente acontece de forma abrupta. Ganha musculatura na sombra, alimentado pelos pequenos sinais de desleixo que decidimos não ver. Quem vive sob essa letargia age com a arrogância de quem possui milênios à disposição, desperdiça horas em hábitos estéreis e adia o essencial, como se…

  • Filosofia & Teologia

    O atrito da vida real

    A missão é o alarme que desperta cada dom oculto, e ele aguarda apenas o atrito da vida real para brilhar. O sentido da vida não é um troféu estático no fim da linha. É a coragem de aceitar a própria vocação e permitir que ela nos obrigue a existir.

  • Filosofia & Teologia

    No chão comum

    Aconteceu no limiar entre 2008 e 2009, na Assembleia de Deus em Padre Gabriel, congregação do Ministério Vale Esperança. O culto já havia se encerrado, talvez fosse o fim de uma festividade, e o que cravou na memória foi o instante em que um homem, cujo rosto eu nunca havia cruzado e jamais voltaria a ver, caminhou na minha direção. Era um sujeito de pele escura e estatura mediana, vestido com uma camisa social preta. Não sei o seu nome, a sua origem ou o seu destino. O encontro não se deu sob o calor dos louvores nem durante o sermão. Aconteceu no rescaldo, quando o barulho começava a se…

  • Filosofia & Teologia

    Desviar-se do alvo

    Uma vida espiritual robusta revela-se não na biologia do sobreviver, mas na profundidade do sentir. Assim como a carne exige o pão cotidiano para não definhar, a alma agoniza por um sustento que transcende a matéria. A advertência de que nem só de pão viverá o homem, em Deuteronômio 8 e retomada por Cristo, não é metáfora poética: é diagnóstico. A Palavra não atua como adorno, e sim como o oxigênio do ser interior. Existe uma alquimia silenciosa entre aquilo que absorvemos e o que passamos a abrigar. Se os olhos são as clássicas janelas da alma, os ouvidos funcionam como os portões do espírito. É por essas frestas que…