-
Memórias de Uma Infância Distante: As Idas e Vindas da Escola
As idas e vindas da escola Maria Stela de Novaes moldavam-se como um padrão inevitável. Não era um caminho escolhido por mim, mas um destino diário conduzido pela necessidade. Dentre tantos colegas que compartilhavam o trajeto, a Jaque começou a se destacar. Era a terceira série, e nós já nos reuníamos em pequenos “bandos” para ir e voltar da escola. Cada um seguia seu rumo ao final do trajeto, mas até então, caminhávamos juntos, construindo uma rotina que, sem perceber, marcaria a memória. Chegávamos à minha rua, e enquanto eu descia para a Rua da Vitória, em algumas ocasiões, acompanhava Jaqueline até a entrada da sua casa. Nunca conheci seus…
-
A Glória que Transborda: Uma Experiência com o Espírito Santo
Aquela energia indescritível, um poder que não se limita à compreensão humana, brota do coração e percorre cada célula do corpo, da cabeça até a ponta dos pés. É um poder que não nasce do esforço humano, mas da rendição absoluta ao Criador. Esse poder se manifesta com intensidade quando, com a boca e a alma em uníssono, proclamamos: Glória, Glória, Glória a Deus! Foi assim que o senti, em 2002, na Assembleia de Deus no bairro Primeiro de Maio. O culto estava cheio, mas, ao mesmo tempo, parecia que eu estava sozinho na presença do Senhor. Diante do altar, dobrei os joelhos. Era um gesto simples, mas cheio de…
-
A Cura Imediata: Quando Deus se Manifesta na Fragilidade
Eram dias de festa na Assembleia de Deus no Bairro Grande Vitória, Congregação do Ministério da Volta do Rabaioli. A igreja estava cheia, as pessoas transbordavam alegria, e os bancos estavam repletos de fiéis prontos para celebrar. Meus pais, como sempre, estavam presentes. Papai, discreto, escolhia um lugar próximo à porta. Eu, doente e impossibilitado de andar, estava no colo de minha mãe. Naquele tempo, minha realidade era marcada por limitações físicas causadas por uma meningite que tinha me atingido severamente. Minhas pernas não firmavam, e a dor na coluna era constante e avassaladora. A cabeça de criança não compreendia a gravidade da situação. Para mim, a vida de internações,…
-
O Castelo Interior: A Construção Invisível da Alma
Um castelo. Não daqueles que se erguem em colinas ou se destacam no horizonte com torres e muralhas visíveis, mas um castelo que se constrói dentro de si mesmo. Suas bases não se limitam ao terreno físico, mas mergulham profundamente no mistério do espírito, cravadas em uma rocha que transcende o mundo. Essa rocha é singular, diferente de qualquer pedra que conhecemos. Ela é viva, pulsante, e seu nome é Vida. Os fundamentos desse castelo não se limitam ao tangível; são basilares, eternos, sustentados pela essência de algo que ultrapassa a compreensão. Colunas de força invisível conectam a rocha aos recantos mais profundos da alma, onde habitam os depósitos mais…
-
A Ilusão da Projeção: O Caminho Entre o Que Se Sonha e o Que Se Encontra
A projeção, essa artimanha da mente, constrói ilusões que se estendem como sombras do presente, tentando alcançar um futuro que ainda não existe. É como trazer o “lá” para o “aqui”, antes mesmo de ele ter forma, substância ou verdade. Mas quando, enfim, o “lá” se torna real e habitamos o espaço do que projetamos, a decepção surge como uma visitante não convidada. Encontra o sentimento e o despedaça com sua crueza, pois o que se sonhou não é o que se vive. Quantas ilusões plantamos ao pensar que podemos ser especiais para alguém, ocupando um trono que só existe enquanto dura o delírio de uma autoestima desenfreada. Acreditamos que…
-
Tempestade de Luz: A Revelação do Beco e da Consciência
Era 2005, uma segunda-feira. O relógio marcava por volta das 11h30 da manhã, e o pequeno quarto no Bairro Cariaciquense estava tomado por uma luz intensa. O sol parecia ter descido para dentro da janela, oferecendo uma clareza que mais confundia do que revelava. As venezianas quebradas e os vidros soltos na janela balançavam ao sabor do vento, enquanto eu observava o beco à frente. Conseguia ver alguém, ou ao menos achava que via. Quem era? Não sabia. A luz ajudava, mas também atrapalhava. Há uma ironia no excesso de brilho: ele ofusca o que deveria revelar. Meus olhos corriam de um lado para o outro, exploravam cada canto. O…
-
A Chuva que Conecta Mundos
A chuva desceu com uma força incomum, quente e salgada, como se fosse feita de sangue. Cada gota parecia carregar a intensidade de algo mais profundo, algo que vinha de dentro e escorria para fora. A luz que antes reinava cedeu espaço a uma penumbra densa, enevoada, onde os contornos das coisas desapareciam, e a identidade se dissolvia. Meus lábios se moveram, mas não em palavras. Era um balbuciar fraco, um sussurro sem forma. Meus olhos, agora vermelhos como brasas, ardiam, e algo quente descia pelo rosto, misturando-se à chuva. Não era apenas água; era sangue, emoção líquida que escapava sem controle. Um suspiro trêmulo ensaiou romper o silêncio, mas…
-
A Memória Eterna de uma Mensagem
Era o ano 2000, e eu caminhava pelas ruas que marcavam os limites entre Pedra dos Búzios e Primeiro de Maio. Atravessar aquela ponte a pé, sentir o calor do meio-dia e ser abraçado pelo silêncio das ruas parecia mais um ato corriqueiro, um percurso que a rotina tornava automático. Curvei à direita, passei pela Igreja Batista que repousava à esquerda e segui adiante, imerso na banalidade dos passos. Não havia pressa, não havia grandes expectativas, apenas o caminho e o calor, que parecia querer se impregnar no ar e na pele. À frente, um caminhão FENEME descansava, dividindo a rua entre o fim e o começo de algo. E…
-
Buracos no Caminho e na Rotina
Era o ano de 2001, e meu pai era responsável por um ponto de pregação em Paul, Vila Velha. Um lugar simples, escondido nos labirintos da periferia, onde a fé se erguia em meio a terrenos que exigiam mais do espírito do que do corpo. Para chegar àquela casa, passávamos por caminhos que o asfalto jamais tocara. Depois do viaduto principal, virávamos à direita, atravessávamos por baixo de um viaduto mais estreito e seguíamos adiante, em direção a um morro. O carro ficava para trás, pois dali em diante o trajeto pertencia apenas aos pés: uma trilha estreita, margeada pela mata, onde apenas uma pessoa podia passar por vez. Esse…
-
O Aviso no Barracão de Tábua
O Pastor Sebastião, marido da irmã Nelza, presidia uma igreja independente chamada Assembleia de Deus Ministério Ide, no bairro Primeiro de Maio. Era uma congregação humilde, mas que carregava em si uma força espiritual singular. Conhecíamos o pastor Sebastião desde antes, quando meu pai pastoreava uma igreja na mesma rua, que mais tarde se fundiria ao Ministério de Jardim Colorado. Contudo, minhas lembranças mais marcantes com o Ministério Ide remontam aos idos de 1997, quando seu templo ainda era um simples barracão de tábuas, erguido no meio do canal que dividia os bairros de Primeiro de Maio e Pedra dos Búzios. Minha primeira visita ao barracão foi marcada pela simplicidade.…




























