Existencialismo
Artes & Narrativas
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Último Dia em Primeiro de Maio
Lá no bairro Primeiro de Maio, eu tinha entre dezesseis e dezoito anos. Foi a última vez do meu pai como pastor daquela pequena igreja; saímos, e meu coração pesou. No derradeiro culto, percebi que o de Paulinha também pesou: as lágrimas vieram, só então. A história começara uns dois anos antes. Paulinha era uma adolescente que ia à igreja mais pelos pais do que por si. Não era firme. Chegava com a mãe e o pai, já idoso à época; a mãe, mais nova, também senhora. Ela se aflorava, como eu. Naquele tempo, não havia professor para a Escola Bíblica Dominical; escolheram-me, não por vocação, mas por falta de…
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Ela Vem: O Mistério que Habita o Coração
Ela vem silenciosa, mas com a força de quem sabe exatamente onde se estabelecer. Surge desde a infância, insinuando-se entre os primeiros olhares e descobertas, quando o mundo ainda é vasto, novo, cheio de promessas e mistérios. Ela não escolhe uma única forma — aparece em todos os rostos e em todos os corpos, seja branca ou morena, magra ou cheia de curvas. Ela é livre, desafiando padrões, sendo ao mesmo tempo comum e incomum, singular e universal. Como uma brisa que chega sem pedir permissão, ela atravessa o tempo e deixa uma marca que não se desfaz. Ela é a sensibilidade da razão, um paradoxo que encanta, pois une…
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O Peso da Âncora e a Linha do Horizonte
A luz fraca da luminária de mesa iluminava apenas o centro da prancheta de Elias, deixando o resto do escritório mergulhado nas sombras de um ano que já havia terminado, mas que teimava em não ir embora. Era meados de janeiro. Lá fora, o mundo falava sobre recomeços, resoluções e novas dietas, mas a mente de Elias estava ancorada no fracasso de novembro: a falência de sua pequena construtora. Ele passava os dias revisando os mesmos contratos antigos, procurando o erro exato, a vírgula fora do lugar que havia desmoronado seus planos. O passado havia se tornado sua residência permanente. Foi durante uma dessas madrugadas insones que um vento frio…
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Memórias de Carros e Família Capixaba
A memória é uma máquina do tempo movida a cheiro de estofado antigo e o brilho do sol batendo em lataria recém-lavada. Para quem viveu o Espírito Santo dos anos 90, a felicidade tinha quatro rodas e nomes que soavam como música. O asfalto da rua principal do bairro Grande Vitória parecia maior naqueles dias. Talvez fosse a perspectiva da infância, ou talvez fosse a presença imponente do Corcel II do Tio Mário. O carro não era apenas um meio de transporte; era uma extensão da personalidade dele. Quando a porta batia com aquele som metálico e seco, o mundo lá fora ficava mudo. Pelo vidro, a paisagem do bairro…
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Quando as tardes pegavam fogo em oração: memórias do Círculo de Oração com minha mãe
Cresci no Evangelho. Desde as minhas primeiras lembranças, minha mãe pertence ao Círculo de Oração. Foi nesse ambiente que fui formado: entre vozes de mulheres simples, mas cheias de Deus, que se reuniam para interceder quando muitos sequer sabiam o que era oração. Quando eu tinha por volta de cinco anos, o poder de Deus era visível na vida da minha mãe. Lembro-me nitidamente de uma tarde na Assembleia de Deus em Estrelinha, perto do campinho. Eram por volta das quinze horas. Minha mãe, junto com outras irmãs, estava no Círculo de Oração. Havia no ar algo que não era apenas emoção religiosa: um peso de glória, uma atmosfera de…
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Porta de saída, porta de encontro: o pastor e a minha adolescência de fé
Quando nos mudamos para Pedra dos Búzios, em Vila Velha, eu estava no início da adolescência. Comecei a frequentar a Primeira Igreja Batista de Primeiro de Maio (PIBPM). Depois da primeira visita, continuei indo: às vezes na Escola Bíblica Dominical, outras nos cultos de meio de semana e nos domingos. Quase parecia já um membro. Aos poucos, porém, fui deixando de ir. Tínhamos uma vizinha chamada Eni, casada com o Seu Francisco, a quem chamávamos, com carinho, de Titico. Ambos já idosos à época, por volta dos sessenta e poucos. Eni era uma senhora bonita, de pele clara, cabelos grisalhos, mais para o branco do que para o preto, e…
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A virtude no gesto da menina
Primeiro de Maio, 1996 — Pedra dos Búzios, Vila Velha. Mudamos para Pedra dos Búzios, em Vila Velha, e por alguns dias ficamos sem reunir. Meu pai seguia pastor pela CADEESO, mas já não estávamos no antigo ministério, a Assembleia de Deus no Alagoano, aquela que ele mesmo fundara e entregara ao pastor Manoel Samora. Foi um breve silêncio de igrejas, um intervalo entre um rebanho e outro. Não demorou e uma menina, um pouco mais velha do que eu, apareceu com um convite simples e luminoso: “Vamos à Primeira Igreja Batista do Primeiro de Maio?” Morávamos na Alameda Caboclo Tamandaré; a igreja ficava ao fim da alameda, à direita.…
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O Silêncio dos Encontros Não Vividos
Quando vou à igreja, não só à minha, mas em especial quando visito outras, levo comigo uma esperança que parece pequena, mas pulsa forte dentro de mim. Uma esperança de que, ali, entre as cadeiras e os cânticos, entre os olhos fechados da oração e os olhos abertos da fé, esteja ela… minha futura esposa. Eu não buscava só beleza. Procurava santidade. Pureza no olhar. Amor pela Palavra. Aquela que fosse, ao mesmo tempo, sensível e firme, maternal e sábia, doce e cheia de vontade de formar uma família de verdade, no temor do Senhor. Mas, mesmo com tudo isso queimando em mim, ficava parado. Esperava.Pensava: “Se for de Deus,…
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A Faca, o Sangue e o Céu no Quintal
Irmãos. Essa palavra ressoa em meus ouvidos com um peso que só o tempo pode moldar. Quando criança, ela era quase abstrata para mim, algo grande demais para abarcar. Mais pesado ainda era o singular: irmã. Um sonho infantil meu era ter um irmão, alguém da minha idade. Mas o que papai e mamãe me deram foi algo diferente. Uma irmã, sete anos mais velha. É curioso pensar quem foi oferecido a quem: ela a mim, ou eu a ela? A lógica aponta que eu fui dado a ela, um pequeno presente para completar o seu reino. O que significa ter uma irmã sete anos mais velha? Para mim, naquela…
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O Salmo 23 e a Lição de Fé no Corredor do Hospital
Era quase meia-noite. Saímos do culto e fomos direto para o hospital. Minha mãe e eu. Não entendia muito bem o que estava acontecendo, mas já me acostumava a essa rotina que parecia maior do que eu. O hospital era um lugar frio, e o branco de suas paredes me dava medo. Caminhava nos braços de minha mãe, olhando ao redor para rostos cansados e olhares baixos, silêncios que ecoavam mais do que palavras. Não gostava daquele lugar onde todas as crianças pareciam doentes, onde eu era apenas mais uma entre tantas. Apesar de tudo, havia algo que tornava a ida ao hospital suportável: a volta. Ao voltarmos para casa,…

























