Sentido único
Escolhi, numa atividade de disciplina, refletir sobre a palavra sentido.
Escolhi porque ela me remetia ao verbo sentir. Escrevi que, quando uma coisa faz sentido, é porque ela consegue mexer com a gente, e que esse mexer não é biológico nem físico: é um sacudir das estruturas internas. Algo faz sentido quando nos move. Move a estrutura. Abala.
E depois passei o resto do texto descrevendo, sem perceber, o terceiro significado da palavra.
Porque sentido, em português, quer dizer três coisas.
Quer dizer significado, como em fazer sentido.
Quer dizer sensação, como nos cinco sentidos.
E quer dizer direção, como em sentido único, mão e contramão, sentido horário, siga em frente neste sentido.
A mesma palavra, para as três coisas.
E eu, sem juntar as pontas, escrevi que o sentido canaliza, que estabelece um percurso predeterminado, que estreita a ligação lógica, e que ele produz movimento retilíneo em direção a um ponto.
Estava falando de direção o tempo todo e chamando de outra coisa.
Isso muda o argumento e o torna mais duro.
Se sentido é significado, sensação e direção ao mesmo tempo, então dar sentido a alguma coisa não é apenas compreendê-la. É orientá-la. É escolher uma via e fechar as outras.
Fazer sentido é virar mão única.
Foi isso que eu escrevi na parte do texto que eu achava que era sobre metodologia. Anotei que o sentido se assemelha à metodologia, porque a metodologia traça um caminho pré-estruturado e o sentido faz a mesma coisa.
Está correto, e é mais grave do que eu supunha na época.
Todo significado é uma restrição. Quando uma experiência ganha sentido, ela para de ser todas as coisas que poderia ser e passa a ser uma. Ganha-se a possibilidade de entender e perde-se a possibilidade de continuar aberto.
É por isso que as pessoas resistem tanto a interpretar as próprias dores. Enquanto a coisa não tem nome, ela ainda pode ser qualquer coisa.
E é por isso, também, que o teatro trabalha o tempo todo com sentido no plural. Corpo, som, movimento e espaço não produzem uma direção só. Produzem várias ao mesmo tempo, e o espectador escolhe onde entrar.
Talvez seja essa a diferença entre explicar e representar.
Explicar é dar sentido único.
Representar é deixar o cruzamento aberto.


