Artes & Narrativas

O terceiro ato

Fiz um fichamento sobre construção de roteiro e anotei a estrutura clássica.

Primeiro ato: apresentam-se os personagens, o mundo e o conflito central. Segundo ato: o conflito se desenvolve e surgem os obstáculos. Terceiro ato: o conflito se resolve e a história se encerra.

É o desenho que sustenta quase tudo o que se conta no ocidente, e ele funciona. Um filme sem terceiro ato deixa a plateia irritada. Uma peça sem terceiro ato parece inacabada.

E eu passei o último ano descobrindo que os meus melhores textos não têm o terceiro.

Reli tudo o que escrevi desde 2006. E o que fui encontrando, texto após texto, era o mesmo movimento: uma cena boa, um conflito real, e depois um parágrafo final explicando o que aquilo significava, tirando a lição, garantindo um resultado, prometendo alguma coisa.

O que sobrou da leitura, quando os melhores ficaram nus, foi isto.

Um rapaz humilhado numa igreja, que descobre que não era escolha, era o que tinha. Fim.

Um homem com ciúme de um romance de banca de jornal, que pergunta baixinho se ler é bom mesmo, e recebe a resposta anos depois, quando começa a escrever. Fim.

Um cartório onde se registra o primeiro choro e se averba o último suspiro. Fim.

Um plano de cinquenta aulas de teatro que não aconteceu, e um arquivo de computador que ainda guarda o cronograma. Fim.

Nenhum deles resolve nada.

E a razão não é preferência estética. É que o terceiro ato é uma invenção.

A vida oferece primeiro ato em abundância, e segundo ato constantemente. Personagens aparecem, o conflito se instala, os obstáculos se acumulam. Isso qualquer pessoa reconhece.

O que ela não entrega é o encerramento.

As coisas simplesmente continuam. O rapaz que te humilhou nunca pede desculpa e você o encontra vinte anos depois num supermercado, mais velho e sem se lembrar. A pessoa que você não conseguiu chamar segue vivendo em algum lugar. A avó morre e a burocracia não acaba com o enterro, ela continua por meses. O projeto engavetado não vira nada, e nem vira lição: só vira arquivo.

Quando eu escrevia terceiro ato, eu estava mentindo, e mentindo do jeito mais compreensível possível, que é o de quem quer que a própria história faça sentido.

O roteiro precisa dos três atos porque tem duração fixa e uma sala que se esvazia.

O texto de quem escreve a própria vida não tem essa obrigação, e é a única vantagem que ele leva sobre o cinema.

Ele pode parar no segundo ato, que é onde a gente mora.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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