Quem tem o campo
Num projeto de pesquisa que escrevi, há uma única frase pessoal, e ela está na primeira linha da introdução.
Diz que a escolha do tema veio da minha experiência profissional como profissional da educação e artista.
É verdade. Sou servidor público federal na educação há quase vinte anos, coordeno, dou aula, prego, e me formei em Teatro aos quarenta.
Depois dessa frase, o projeto tem vinte páginas e não volta a mencionar nada disso.
O que vem é Adorno, Bourdieu, Freire, Gadamer, Rancière, Benjamin, Larrosa. Todos excelentes, todos pertinentes, todos citados corretamente.
E nenhum deles esteve na escola que eu observei.
Isso não é um erro de escrita acadêmica. É a norma. Projeto de pesquisa se escreve assim, e quem escreve de outro jeito costuma ser reprovado na qualificação por falta de fundamentação.
Mas vale registrar o que se perde.
Eu tinha, na época em que escrevi aquele projeto sobre formação estética, um caderno com meses de observação de campo numa escola pública de periferia.
Tinha anotado que a sala de Artes daquela escola tem vista para a baía de Vitória, e que nem os alunos nem o professor olhavam pela janela.
Tinha anotado que um professor de Artes comprou uma caixa de sessenta lápis de cor com o próprio salário para um aluno cuja família não podia comprar.
Tinha anotado dois alunos sentados sozinhos numa biblioteca, que fizeram todos os exercícios corretamente e não pediram nada a ninguém durante a aula inteira.
Tinha anotado um menino saindo da sala porque três colegas riram do desenho dele.
Tinha anotado que a escola chama de descaracterizado o aluno que está sem uniforme.
Qualquer uma dessas cinco anotações diz mais sobre formação de subjetividade estética numa escola brasileira do que qualquer parágrafo que eu escrevi citando teoria estética.
E eu não usei nenhuma delas.
Porque a linguagem do projeto pedia outra coisa, e porque eu ainda achava, naquele momento, que o que eu tinha visto era só experiência, e que teoria era o que estava nos livros.
Hoje eu sei que é o contrário. Teoria não falta a ninguém, e ela está toda publicada, em português, a um clique.
O que é raro é campo.
Existe um número muito pequeno de pessoas no Brasil que trabalham dentro de uma instituição de ensino, atendem estudantes em sofrimento todos os dias, dão aula, pregam num púlpito, fizeram licenciatura em Teatro e ainda escrevem.
Eu sou uma delas, e passei anos citando europeus para descrever o que eu podia ter descrito olhando pela janela da minha sala.
Não é para abandonar a bibliografia. Sem gramática o poeta não fala, e sem teoria o pesquisador só relata.
É para lembrar da ordem.
Primeiro o que eu vi. Depois quem me ajuda a entender o que eu vi.
E não o contrário, que é o que quase todo mundo faz, inclusive eu.


