Pólis & Gestão

Pontos fracos em seu percurso

O campo do formulário chamava-se assim: pontos fracos em seu percurso.

Era um relatório de autoavaliação de estágio do curso de Teatro, dos que toda licenciatura exige. O aluno descreve o que deu errado, a coordenação lê, arquiva, e o semestre se encerra.

Eu respondi com uma lista de marcadores.

O retorno presencial depois da pandemia, com todas as demandas que ele trouxe de uma vez. O acúmulo de trabalho deixado por colegas que saíram do meu setor e não foram repostos. Problemas de saúde física e mental. Falecimento de parentes. Dívidas que eu não estava conseguindo pagar.

Escrevi tudo isso com marcadores, um embaixo do outro, porque era o formato que o documento pedia. E acrescentei, no parágrafo seguinte, que não havia sido negligência, e que não tive suporte psicológico para absorver os problemas e ainda realizar as atividades propostas.

Reli isso um ano depois e o que me impressiona não é a lista. É o formato.

Existe uma violência específica no formulário que pede a sua ruína em tópicos. Ele não pergunta como você está: pergunta quais foram os fatores que impactaram o seu desempenho. E aí você senta, num fim de tarde de maio, e converte a pior temporada da sua vida adulta em cinco linhas com bolinha na frente, cada uma com a extensão certa para caber no campo.

Depois disso, alguém lê, atribui um conceito e arquiva.

Não estou acusando a universidade. O formulário fazia o que formulário faz, e a professora que o leu provavelmente foi gentil. O problema não é de má intenção: é que não existe, na estrutura, nenhum lugar em que aquilo pudesse ser dito de outro jeito.

A instituição precisa saber o que aconteceu para poder decidir. E o único canal disponível transforma o que aconteceu em item de lista.

Um ano depois, num cartório, eu descobriria que existe um nome para isso. Chamei de burocracia emocional a parte do luto que se resolve com papel e carimbo, e que chega exatamente quando a pessoa está menos capaz de preencher qualquer coisa.

Aquele relatório de estágio foi uma burocracia emocional, e eu nem sabia.

Levei um ano para reler. E o que mais me dói ali não é nenhum dos itens.

É a frase que veio depois deles: tenho como provar.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *