7º Ano 1
Uma coisa pequena me chamou a atenção logo no começo do estágio estágio supervisionado em Teatro, e eu a registrei no diário sem saber por que estava registrando.
Na maioria das escolas, a turma se chama 7º Ano A. Um número para o ano, uma letra para a turma.
Naquela escola, não. Chama-se 7º Ano 1.
Dois numerais. Um para o ano, outro para a turma.
Escrevi que aquilo me chamou atenção, e passei adiante. Não tinha nada a acrescentar, porque não tinha instrumento nenhum para pensar aquilo. Era só uma estranheza de nomenclatura, do tipo que a gente nota e esquece.
Hoje, eu sei exatamente por que aquilo me incomodou. A racionalização.
Letra e número não são a mesma coisa.
A letra é resíduo de alfabeto, de escrita, de nome. Turma A, turma B, turma C. É arbitrário, é herdado, e ninguém consegue calcular com aquilo. A letra apenas distingue.
O número é outra categoria. Número ordena, compara, soma e alimenta planilha. Turma 1, turma 2, turma 3. E, uma vez que tudo é numeral, o sistema inteiro passa a falar uma língua só: 7.1, 7.2, 8.1, 8.3. Coordenadas.
Não estou dizendo que alguém escolheu isso com má intenção. Ninguém se reuniu para decidir que os alunos deveriam virar índices. Provavelmente foi uma decisão de sistema, tomada por conveniência de banco de dados, e todo mundo achou prático.
É sempre assim. A racionalização quase nunca chega por decreto. Chega por conveniência, uma letra de cada vez, sempre com um bom motivo administrativo.
E o que me interessa não é a nomenclatura em si, que é detalhe. É que eu, aos trinta e sete anos, entrei numa escola pela primeira vez como estagiário, notei aquilo em dois segundos, escrevi no caderno, e não soube dizer nada a respeito.
O incômodo chegou antes da teoria.
Foi por isso que fui estudar.


