Educação & Cuidado

Além do utilitário

Num comentário de disciplina, escrito às pressas depois de assistir a um vídeo de Ana Mae Barbosa, eu formulei sem perceber o problema que viria a estudar pelo resto da vida.

A frase está lá, no fim do parágrafo, precedida de dois pontos:

Este é o desafio do meu estágio: levar o aluno a reconhecer a beleza da arte, além da perspectiva utilitarista do sistema educacional vigente.

A perspectiva utilitarista do sistema educacional vigente.

Eu tinha trinta e sete anos, estava no meio de uma licenciatura a distância e comentava um vídeo obrigatório. E nomeei, em oito palavras, o adversário.

Não era uma abstração. Eu tinha acabado de encontrá-lo, em pessoa, na mesma escola.

Semanas antes eu havia entrevistado os alunos daquela turma e perguntado o que achavam das aulas de Artes. Eles responderam que não consideravam importante. Anotei no relatório o meu espanto com o pragmatismo que encontrei em gente de doze e treze anos.

Não era pragmatismo deles. Era a perspectiva utilitarista do sistema, funcionando exatamente como projetada, e já instalada na cabeça daquelas crianças antes de qualquer aula.

E o resto daquele comentário, que parece genérico, descreve a estratégia contrária.

Escrevi que a arte não se adquire por conceitos prontos e acabados. Que o professor é provocador de experiências. Que transmitir dados puros não é boa prática, e que se deve colocar a obra à disposição do aluno para movimentar o pensamento e a emoção.

E escrevi a coisa mais importante, quase de passagem: que era preciso fazer o aluno perceber a beleza da arte que está em volta dele, que já faz parte da vida dele e está totalmente em seu acesso.

Já está em volta. Já é dele. Já está acessível.

Meses depois, no diário daquela mesma escola, eu anotei que a sala de Artes tem uma vista privilegiada para a baía de Vitória, e que nem os alunos nem o professor a apreciavam.

Beleza disponível, ao alcance, todos os dias, atrás de uma janela, e ninguém olhando.

Não é falta de sensibilidade. É que a escola não tem tempo de olhar, e o motivo de não ter é o mesmo que faz um adolescente concluir que Artes não é importante.

Tudo naquele prédio estava organizado em torno do que serve.

E o que se vê pela janela não serve para nada.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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