A cura pela fala
Estou estudando psicanálise, e a primeira coisa que o material diz é isto:
Os seres humanos tendem a falar sobre seus problemas. É natural procurar alguém de confiança quando algo nos aflige. Às vezes pedimos conselho, mas muitas vezes queremos apenas nos sentir ouvidos e compreendidos.
E a terapia acontece fazendo com que a pessoa fale.
Parei nessa frase por um tempo.
Porque a disciplina inteira, desde Freud, se apoia numa premissa que a minha vida passou quarenta anos contrariando: a de que as pessoas falam.
Eu não falo.
Não falei à menina de treze anos, diante do espelho, que ela estava bonita. Não falei às moças do culto, durante anos, e elas foram embora sem que eu conhecesse a voz de nenhuma. Não telefonei quando devia telefonar. Escrevi, sobre mim mesmo, que passei décadas calado não por falta de voz, mas por excesso de temor, e que o corpo não saía do lugar enquanto o pensamento já tinha atravessado a sala.
E escrevi, em 2013, uma frase que hoje me parece um diagnóstico: a ansiedade prova que o silêncio também adoece. Descrevi como ela nasce na garganta, no limiar exato entre o dito e o não dito, e desce até o estômago, onde se aloja como uma âncora que ninguém atirou.
Eu já tinha, aos vinte e oito anos, a intuição central do método que estou estudando agora aos trinta e oito: o que não sai adoece.
O que eu não tinha era a outra metade.
Porque a psicanálise não diz apenas que o silêncio adoece. Diz que existe alguém do outro lado, e que a fala precisa de destinatário.
Isso é o que me falta, e sempre faltou.
Eu resolvi o problema pela escrita. Descobri, numa madrugada de 2006, que o teclado destravava o que a voz travava, e que na tela o silêncio do outro deixa de ser veredito e vira apenas intervalo de digitação. Construí duzentos e sessenta textos em cima dessa descoberta.
Mas escrever não é falar, e leitor não é ouvinte.
Quem escreve controla tudo: o tempo, a versão, o que entra e o que fica de fora. Pode revisar por dias, cortar o que expõe demais, escolher a palavra que protege. Eu faço isso profissionalmente.
Numa sala com outra pessoa, não dá. A frase sai como sai, na hora, e alguém está ali olhando enquanto ela sai.
É por isso que existe a análise pessoal na formação de qualquer analista, e é por isso que ela leva anos.
Não é um requisito burocrático. É a exigência de que quem vai ouvir tenha primeiro passado pela experiência de falar, e de descobrir o que acontece com uma pessoa quando ela é obrigada a produzir palavra sem a possibilidade de reescrever.
Passei a vida do lado de cá da página.
E agora estou estudando um ofício que só funciona do outro lado.


