Marcha à ré
A exortação apocalíptica para voltar ao primeiro amor não é apenas uma reprimenda: reflete um anseio da própria alma por reviver o assombro dos primeiros passos na fé, um tempo em que a devoção era pura e despida de burocracias. Mas o caminho de retorno não é um passeio nostálgico. É um percurso que exige a coragem de auditar, rever e, muitas vezes, reescrever os capítulos que nós mesmos negligenciamos.
Essa revisão do passado costuma nos assaltar à revelia. Na quietude da noite, quando as engrenagens do mundo param de girar, somos capturados por um cinema interno. O passado projeta-se na mente, obrigando-nos a revisitar cenas, falhas e assombros antigos. É nesse laboratório noturno da memória que muitas vezes o Espírito acende a luz de alerta no nosso painel, avisando que nos desviamos da rota.
Para a arrogância moderna, a ideia de voltar soa como retrocesso, uma confissão de fracasso. Mas imagine um homem caminhando a passos largos em direção à beira de um precipício: ali, o único movimento capaz de garantir a continuidade da vida é o passo para trás. Quando descobrimos que pegamos a via errada, engatar a marcha à ré não é desistir da viagem. É salvar-se.
A estrada da fé está cercada por rotas secundárias e miragens. São atalhos pavimentados de boas intenções, que dão a ilusão de progresso e desembocam em becos sem saída ou em exaustão estéril. Somente a via de origem, a entrega inegociável à Pessoa de Cristo, reconecta à paz verdadeira, onde a milhagem percorrida encontra propósito. A distração, a vaidade e a pressa de fazer a obra nos empurram para o acostamento.
Caminhar de volta ao primeiro amor é um convite à contemplação. É recusar o ritmo frenético de uma vida espiritual superficial para abraçar o valor das miudezas e a profundidade do silêncio com Deus.
A maturidade espiritual não se afere pela velocidade dos nossos passos, mas pela constância e pela sinceridade da nossa direção.


