Educação & Cuidado

O prédio que era da medicina

A Escola Viva de São Pedro funciona nas antigas instalações do Campus II da FAESA.

A FAESA foi a maior faculdade privada do Espírito Santo, e o Campus II abrigava os cursos da área da saúde. Quando a instituição desocupou o espaço, o Estado aproveitou parte dele para instalar uma escola pública de tempo integral.

Anotei isso no meu diário de estágio, em 2022, dentro de um item que eu havia chamado de observações estéticas. Escrevi que as instalações eram dignas de espaço de ensino superior. Escrevi sobre a vista panorâmica para a baía de Vitória, sobre a circulação de ar, sobre o amplo estacionamento, a quadra poliesportiva e o excelente auditório.

E passei para o próximo tópico.

Levei um ano para entender o que eu tinha visto.

Estudantes de São Pedro assistem aula num prédio construído para formar médicos que pagavam mensalidade. Os mesmos corredores, as mesmas salas, a mesma vista. A diferença é quem está sentado.

São Pedro é um bairro erguido sobre aterro, em área de mangue, num pedaço de cidade que Vitória passou décadas tratando como fundo de quintal. Eu conheço essa geografia por dentro: cresci num quintal que também era mangue, aterrado balde por balde pelos meus pais, num terreno que um bisavô deu de presente e que não servia para nada até alguém carregar areia por anos.

O chão de São Pedro e o chão da minha infância têm a mesma origem: gente pobre transformando água parada em lugar onde se possa viver.

E agora existe ali um prédio de faculdade cheio de adolescentes daquele bairro.

Não escrevo isso como celebração. O prédio ser bonito não resolve nada sozinho, e naquele mesmo diário eu registrei os conflitos entre os alunos, as ameaças, os palavrões, a dificuldade de manter atenção. A boa arquitetura não é política pública.

Mas há um detalhe que ficou comigo e que eu também anotei sem perceber o que estava anotando.

No dia da entrevista, a coordenadora me levou por um corredor procurando uma sala vazia para conversarmos. Abriu a primeira: ocupada. A segunda: ocupada. A terceira: ocupada. Só na quarta havia lugar.

Um prédio inteiro de ensino superior, e nem uma sala sobrando.

É essa a imagem que eu levaria daquela escola, se pudesse levar só uma. Não a vista da baía. As quatro portas.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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