Projeto de vida
Numa das respostas daquele questionário, transcrevi um trecho da Base Nacional Comum Curricular:
É papel da escola auxiliar os estudantes a aprender a se reconhecer como sujeitos, considerando suas potencialidades e a relevância dos modos de participação e intervenção social na concretização de seu projeto de vida.
E comentei favoravelmente. Escrevi que o projeto de vida vem ao encontro da necessidade das juventudes, que a escola possui as ferramentas para mediar a conexão dos estudantes com o espaço e com o outro, e que isso promove equidade, diversidade e protagonismo.
Foi o que eu pensei em 2022.
Hoje eu leio a mesma frase e reparo em outra coisa.
Ela pede que a escola ajude o adolescente a se reconhecer como sujeito considerando as suas potencialidades. Ou seja: pede que ele se avalie. Que faça o inventário do que tem, do que pode, do que quer, e que organize isso num plano.
O aluno é convidado a se tratar como projeto.
E projeto tem objetivo, meta, cronograma e indicador de resultado. É vocabulário de gestão, e eu conheço esse vocabulário de dentro, porque é o que uso no meu trabalho todos os dias.
Não estou dizendo que a intenção seja má. Provavelmente não é. Quem redigiu aquilo estava tentando dar aos estudantes algo que o currículo tradicional nunca deu: espaço para pensar a própria vida.
E também não estou dizendo que seja inútil. Um adolescente de escola pública que nunca ouviu ninguém perguntar o que ele quer ser precisa que alguém pergunte.
O que eu não sei mais é se a resposta certa a essa falta era transformar a existência de um menino de treze anos em documento com metas.
Porque foi nessa mesma escola, no mesmo semestre, que eu perguntei aos alunos o que achavam das aulas de Artes. E eles responderam que não consideravam importante.
Aqueles meninos já sabiam classificar conhecimento por utilidade antes de qualquer aula de projeto de vida. Já operavam com a lógica do que serve e do que não serve.
E a pergunta que fica é se o componente veio corrigir essa lógica ou se veio consagrá-la.
Não tenho resposta. Gosto de temas que discorre justamente sobre o que acontece quando a experiência humana passa a ser organizada por critérios de eficiência, e ainda assim não sei dizer, com segurança, de que lado desse muro está o projeto de vida.
Sei apenas que no ano passoado eu tinha certeza, e hoje não tenho.
E que essa perda de certeza foi, provavelmente, a coisa mais útil que a universidade me deu.


