Pólis & Gestão

Quarenta e cinco horas

A disciplina de Estágio Supervisionado 2 exigia quarenta e cinco horas de regência.

O professor da escola me ofereceu duas aulas por turma.

Eram seis turmas. Duas aulas de cinquenta minutos cada. Seiscentos minutos.

Dez horas.

Quarenta e cinco exigidas. Dez disponíveis.

Anotei a diferença no relatório e escrevi, na frase seguinte, a única coisa que dava para escrever: considerando toda a dificuldade em se encontrar um estágio, aceitei a proposta.

Aceitei porque a alternativa era não ter estágio nenhum.

Eu havia procurado várias escolas antes. Várias me recusaram. Aquela foi a última que procurei e a única que me acolheu, e eu já tinha atravessado, no semestre anterior, um processo de formalização que descrevi no meu próprio relatório com a palavra saga.

Diante disso, dez horas em vez de quarenta e cinco não era uma negociação. Era uma oferta única.

Não estou acusando o professor. Ele tinha seis turmas, cinquenta minutos por aula, um trimestre inteiro planejado e nenhuma obrigação de ceder tempo de aula para um estagiário que ele conhecia havia poucos meses. Duas aulas por turma é, do ponto de vista dele, generosidade.

E também não estou acusando a universidade. Quarenta e cinco horas de regência é uma exigência razoável para quem vai receber licença para lecionar. Menos que isso seria formar professor sem prática.

O problema é que as duas instituições estão certas e o número não fecha.

A universidade define a carga horária olhando para o que forma um professor. A escola define a disponibilidade olhando para o que cabe no ano letivo dela. Ninguém coordena as duas contas, porque não existe nenhuma instância que faça isso.

E a diferença entre os dois números não é absorvida por nenhuma delas.

É absorvida pelo estagiário.

Que aceita dez horas, tenta preencher o resto com o que puder, negocia, adapta, propõe alternativas, e no fim escreve num relatório que aceitou, considerando a dificuldade.

Todo país tem lacunas assim entre as suas instituições, e elas parecem administrativas. Não são. Cada lacuna dessas tem uma pessoa dentro dela, segurando as duas pontas com o próprio corpo, e essa pessoa quase sempre é a que tem menos poder de todas as envolvidas.

No caso, era eu, e eu tinha trinta e sete anos, mestrado, cargo público e vinte anos de púlpito.

Imagine quem tem vinte e dois.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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