Filosofia & Teologia

Contaminação

Existe uma palavra que a pedagogia das artes usa com carinho e que eu já não consigo mais ouvir do mesmo jeito.

Contaminação.

No vocabulário da arte-educação e do teatro, contaminar é bom. Significa a passagem de uma linguagem para dentro de outra, a mistura fértil, o transbordamento que impede que cada disciplina fique trancada no próprio quadrado. Uma aula de dança contaminada de teatro. Um texto contaminado de música. Um corpo contaminado pelo espaço em que está.

A palavra foi escolhida justamente por ser transgressora. Ela vinha da biologia, do campo da doença, e era trazida para a arte de propósito, como quem rouba um termo do inimigo e o usa ao contrário. Contaminação, ali, era vida passando de um lugar para outro sem pedir licença.

Eu usei essa palavra sem problema durante anos.

Hoje não gosto dela. Dá ideia de algo contra a saúde.

Levei um tempo para entender o que tinha mudado, e não foi a palavra.

Entre 2020 e 2022 o país inteiro aprendeu contaminação em outro registro. Aprendeu com número, com boletim diário, com fila de hospital, com gente que não voltou. A palavra deixou de ser metáfora emprestada e virou a coisa mesma, todos os dias, no rádio e no telefone.

E quando um termo é ocupado desse jeito, não há como devolvê-lo.

Isso acontece de tempos em tempos com algumas palavras. Elas ficam marcadas por um acontecimento e não conseguem mais significar o que significavam antes. Quem escreve percebe primeiro, porque tenta usar e a frase não funciona.

O que me interessa aqui não é a perda em si. É que a substituição não foi decidida por ninguém.

Nenhum congresso de arte-educação votou pela aposentadoria do termo. Nenhum autor publicou retratação. A palavra simplesmente parou de servir, porque quatro milhões de conversas em três anos a usaram para outra coisa, e a língua foi atrás.

É assim que o vocabulário muda: não por decreto, mas por uso, e sempre depois que já mudou.

Ainda não tenho substituta.

Talvez atravessamento, que é o que a academia vem usando, embora seja mais frio e menos corporal. Talvez transbordamento, que guarda a ideia do que passa de um lugar para outro sem pedir licença.

Nenhuma das duas tem a coragem que a original tinha.

Contaminação era uma palavra que sabia que estava fazendo algo perigoso. Era esse o ponto.

Perdemos isso, e não foi de graça.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *