Anima
Escrevi, numa resenha sobre teatro de bonecos, que no teatro de formas animadas a anima é o ator-manipulador. Que ele é o agente alma, o espírito que dá dinâmica à arte.
Escolhi essa palavra sem pensar, e ela é a raiz de tudo.
Animar é dar alma. Anima, em latim, é sopro, é aquilo que faz respirar. Formas animadas não são formas que se movem: são formas que receberam alma de alguém que tinha alma para dar.
E o gesto é sempre o mesmo.
Alguém pega uma coisa que não vive, pano, madeira, papelão, e sopra dentro dela alguma coisa que não estava lá. A matéria é inerte antes e é inerte depois, quando o espetáculo acaba e o boneco volta para a caixa. No intervalo entre uma coisa e outra, quem olha jura que aquilo está vivo.
Passei a vida lendo um livro que começa exatamente assim.
Um Deus que forma um corpo do pó da terra e sopra nas narinas dele o fôlego de vida, e o pó vira alma vivente. É a primeira coisa que acontece com um ser humano na narrativa que eu prego há mais de vinte anos.
O ator-animador faz a versão pequena disso, com as mãos, na frente de crianças, num palco improvisado.
Não estou dizendo que sejam a mesma coisa, e não vou forçar essa ponte. Um é teologia e o outro é ofício.
Mas as duas atividades compartilham o entendimento mais importante que eu conheço sobre matéria e vida.
O boneco não tem vida própria. Nunca terá. Se o manipulador solta, ele cai, e é imediatamente aquilo que sempre foi: pano com serragem dentro.
E ainda assim, enquanto a mão está lá, ele é uma criatura, e a criança na plateia não está enganada ao chorar quando ele se machuca.
A vida ali é real e é emprestada ao mesmo tempo.
É a coisa mais difícil de aceitar em qualquer domínio, e talvez seja a única que eu tenha realmente aprendido: que tudo o que respira respira por empréstimo, e que isso não torna a respiração menos verdadeira.
Meses atrás, enterrei minha avó. Descobri, olhando o nome dela e o da minha outra avó lado a lado, que ambos começavam com a sílaba ar, o fôlego.
Arlinda. Arlete.
Ar da vida.
O sopro entra, a forma anima, o sopro sai, e a matéria volta a ser o que era.
Uma criança de sete anos entende isso perfeitamente ao ver um boneco de pano cair no chão.
Um homem de quarenta e um passa a vida tentando aceitar.


