Os sinais que o universo envia
Há uma frase que se tornou comum e que me faz parar toda vez:
Preste atenção aos sinais que o universo envia.
Ela aparece em livros de autoajuda, em legendas de rede social, em conversa de mesa e, cada vez mais, dentro de igrejas evangélicas.
Eu sou ministro do Evangelho. Prego há mais de trinta anos. E a primeira vez que ouvi essa frase num culto, levei alguns segundos para entender o que estava errado.
O universo não envia nada.
Não é uma questão de gosto nem de rigor doutrinário. É uma questão de gramática teológica. Na fé que eu professo, existe Alguém que fala, e esse Alguém tem nome, tem vontade e tem rosto. A relação é entre pessoas. O universo, na melhor das hipóteses, é a obra. Obra não manda recado.
O que aconteceu é que uma linguagem substituiu a outra sem que ninguém percebesse.
E ela substituiu porque é mais confortável.
Quando é Deus quem fala, existe a possibilidade de Ele dizer não. Existe a possibilidade de Ele mandar esperar, ou de mandar fazer o que você não quer. A oração que muitos de nós rezamos no pior momento da vida termina com uma frase que ninguém coloca em legenda: seja feita a Tua vontade, e não a minha.
O universo nunca diz não. Ele só confirma. Os sinais que ele envia são sempre sinais de que você está no caminho certo, de que aquilo era para ser, de que a coisa desejada está a caminho.
É por isso que a expressão pegou. Ela mantém a aparência de transcendência e retira dela a única parte incômoda, que é a possibilidade de ser contrariado.
E daí vem a segunda troca, que é pior.
Se o universo confirma, então coincidência vira mensagem. Encontrar duas vezes a mesma pessoa na semana passa a ser sinal. Um número repetido no relógio passa a ser sinal. Uma vaga que apareceu na hora passa a ser sinal.
Isso é adivinhação com vocabulário simpático, e é justamente o que a minha tradição sempre rejeitou.
Não escrevo isso para condenar quem usa a frase. A maioria das pessoas que a diz não está aderindo a nada: está apenas repetindo o que ouviu, e quer dizer uma coisa boa, que é a sensação de não estar sozinha no mundo.
Escrevo porque palavras carregam teologia mesmo quando ninguém está prestando atenção, e essa carrega uma bem específica: a de um cosmos que existe para concordar comigo.
Já escrevi sobre outra palavra que mudou de sentido sem que ninguém decidisse. Contaminação, que na arte significava mistura fértil, foi ocupada por três anos de pandemia e não voltou mais.
Com o universo aconteceu o contrário. Ninguém tomou a palavra: ela foi oferecida, e nós aceitamos porque era mais leve.
E aí, um dia, você está no púlpito e ouve a frase saindo da boca de alguém que ama Jesus de verdade, e percebe que a substituição já aconteceu, e que ninguém votou.


