Ouvir o próprio pé
Num exercício de percepção, pedi que os estudantes caminhassem de olhos fechados pela sala.
Depois, um deles contou o que tinha acontecido.
Disse que ouviu o próprio pé.
Foram três palavras, ditas sem nenhuma solenidade, e é a melhor coisa que apareceu em seis meses de trabalho.
Aquele menino tem dezesseis anos, faz curso técnico integrado ao ensino médio, entra na escola às sete da manhã e sai às cinco e meia da tarde. Passa dez horas por dia num prédio com muro alto, câmera, portão de ferro e horário rígido, aprendendo coisas que servem para operar sistemas.
E numa tarde de sexta-feira, andando devagar de olhos fechados numa sala de educação física, ele ouviu o próprio pé encostando no chão.
Aquele som sempre esteve lá. Ele o produz milhares de vezes por dia desde que aprendeu a andar.
O que aconteceu não foi um som novo. Foi a primeira vez que houve alguém escutando.
Escrevi, num texto sobre outra escola, que a sala de Artes tinha vista para a baía de Vitória, e que nem os alunos nem o professor olhavam pela janela. Não pararam de olhar porque resolveram o problema da baía. Pararam porque a viam todo dia às sete da manhã.
E escrevi que o preço da vida adulta é o deslumbramento: ganha-se discernimento e perde-se a capacidade de se espantar.
Aquele menino recuperou por um instante.
Não porque eu ensinei alguma coisa. Não havia conteúdo naquele exercício. Havia uma sala, uma instrução simples e permissão para andar devagar.
O que eu fiz foi tirar duas coisas do caminho: a pressa e a obrigação de produzir resultado.
E foi só disso que ele precisou.
Isso me faz desconfiar de boa parte do que eu mesmo escrevo sobre metodologia.
Passei um trabalho inteiro construindo referencial, sequência didática em quatro blocos, fundamentação fenomenológica e categorias de análise. Nada daquilo é dispensável, e sem o percurso ele não teria chegado ali.
Mas o que aconteceu de fato foi um adolescente escutando o próprio corpo tocar o chão.
E se eu tivesse que escolher entre entregar as noventa páginas ou entregar aquela frase, não haveria dúvida.
Ele ouviu o próprio pé.
Quem já ouviu uma vez sabe que existe alguma coisa acontecendo o tempo todo, embaixo do barulho, esperando que alguém pare.


