Educação & Cuidado

Obesidade de informações

Quem partilha da minha rota conhece o meu vício mais enraizado: a paixão por aprender. Não falo da absorção rasa e utilitarista de informações que a modernidade nos empurra goela abaixo. Refiro-me ao aprendizado vertical, àquele mergulho em que cada texto é dissecado para pavimentar a construção de um saber denso. E, sim, eu leio muito, mas a maturidade me ensinou uma verdade dura: volume não é sinônimo de profundidade. É vital ler bem, de forma combativa, atacando as palavras com a fome de quem deseja desvendar a espinha dorsal daquilo que se oculta nelas.

Foi no meio dessa busca que uma recomendação ouvida no programa do professor Olavo de Carvalho mudou as minhas métricas: Como Ler Livros, de Mortimer J. Adler. Desde as primeiras páginas, a premissa é implacável: não é um manual para quem busca entretenimento de fim de noite. É uma ferramenta para quem deseja forçar o próprio crescimento intelectual através do texto.

Adler alerta para o efeito anestésico dos meios de comunicação de massa. Embora a tecnologia não seja inerentemente má, a sua velocidade nos afastou da contemplação. O resultado é uma geração diagnosticada com obesidade de informações e desnutrição de sentido: temos acesso a um catálogo infinito de fatos, mas carecemos da musculatura cognitiva necessária para compreendê-los e correlacioná-los.

A leitura, sob essa ótica, precisa ser um ato contra a passividade. É um exercício exigente, no qual a mente, ao engalfinhar-se com a tese, eleva-se por mérito próprio. Decodificar letras para manter-se informado é o nível mais rasteiro do letramento. Precisamos ler para compreender o mundo. E essa compreensão só é atingida quando o leitor, esticando a própria inteligência, consegue escalar o muro e encontrar o autor no patamar exato em que a ideia foi concebida.

Ler para compreender: esse é o convite incômodo que Adler nos joga no colo. A leitura ativa é a antítese do consumo descartável. É uma arte marcial que afia o intelecto, expulsa a preguiça mental e transforma cada página em embate.

Fomos mal-acostumados a consumir textos apenas para acumular fatos que nos façam parecer informados, esquecendo a velha arte de debruçar-se sobre um livro para de fato expandir a mente.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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