Sinusite
Escrito em 2012, sobre 1990 ou 1991.
Eu devia ter cinco ou seis anos. A minha primeira epifania de autoconsciência materializou-se numa tarde de infância, enquanto eu brincava sobre o muro dos fundos de casa, no bairro Grande Vitória. Estava ali, agachado, imerso na simplicidade ingênua dos jogos solitários, quando um desconforto súbito tomou de assalto a minha fronte. Entre os olhos, uma dor pulsante começou a ditar o seu ritmo, uma pressão densa que o meu vocabulário de menino ainda não sabia nomear.
Mais tarde, a medicina chamaria aquilo de sinusite. Naquele instante, a única certeza era a presença irrefutável do incômodo, despontando em exata sincronia com o fim do dia.
Foi como se eu tivesse sido bruscamente acordado para a minha própria existência, arremessado de volta para dentro do meu corpo. A dor transcendia o físico. O céu que escurecia, o silêncio da rua, a solidão do quintal, tudo parecia conspirar para forjar aquele encontro. Acabei fundindo a pressão na fronte àquele instante, como se o atrito do corpo e o adeus do sol fossem uma única e inseparável coisa.
Compreendi, de forma crua e intuitiva, que habitava em mim uma instância silenciosa que observava, que sentia com uma profundidade assustadora, e que era capaz de se perceber sozinha no espaço.


