O corpo não saiu do lugar
Escrevi há pouco quatro parágrafos sobre a atração. Saíram fáceis. Falavam de uma presença que atravessa o tempo, de uma sedução que não é da aparência, de uma essência que dispensa explicação. Reli e percebi que em nenhum momento eu havia dito o que estava descrevendo. Tinha enobrecido antes de nomear.
Nas mesmas semanas, reencontrei três textos antigos.
Num deles eu tinha treze anos, e uma menina me pediu uma palavra gentil diante de um espelho. Respondi que era muito controlado, que nada me tirava do controle.
Noutro, aos dezesseis, uma moça se inclinou sobre uma mesa a dois passos de mim e ficou ali. Pensei que ela me odiava.
No terceiro, alguns anos depois, escrevi que via moças no culto e esperava que Deus escolhesse por mim. Foram embora sem que eu conhecesse suas vozes.
A facilidade de escrever sobre a atração e a impossibilidade de agir diante dela não são coisas separadas. A eloquência estava disponível justamente porque o resto não estava. Descrever era o que sobrava.
Cresci lendo Agostinho, e ele não elogia o desejo em lugar nenhum. Conta que roubou peras que não queria comer. Conta que pediu castidade e pediu, na mesma oração, que ela demorasse a chegar. Conta que o corpo obedecia menos do que a vontade mandava. As Confissões duram porque são específicas e pouco lisonjeiras com quem as escreveu. Meus quatro parágrafos eram gerais e generosos comigo.
Aprendi na igreja, antes de aprender a escrever, que o desejo podia ser mencionado depois de purificado. Havia vocabulário abundante para a alma e quase nenhum para o corpo, e o que existia era clínico ou era condenatório. Quem cresce assim aprende cedo a converter apetite em virtude antes de abrir a boca. O resultado é que a boca abre tarde.
Não estou reclamando de ninguém. Aos treze anos ninguém me impediu de dizer que ela estava bonita. A frase não veio, e eu a substituí por outra, sobre autocontrole, que era mentira e era confissão.
Continuo escrevendo melhor do que ajo. Os quatro parágrafos sobre a atração são bem construídos. Não valem uma frase dita na hora certa.


