Eu sou um executivo
Lembro-me vividamente de uma tarde no quintal de casa, no bairro Grande Vitória. Um quintal que mais parecia uma pequena chácara, com espaços amplos. Ali havia paredes de alvenaria que seriam, no futuro, parte de uma piscina que nunca veio a existir.
Naquele dia, eu segurava uma pasta executiva que pertencera ao meu pai. Uma pasta robusta, de couro preto, que ele usava para carregar papéis importantes para a igreja. Por algum motivo, a pasta havia sido descartada, e agora estava em minhas mãos. Na companhia de alguns amigos, cujos rostos e nomes o tempo apagou, olhei para aquela pasta com um misto de curiosidade e fascínio.
Segurei a pasta com firmeza, ergui-a e declarei em voz alta, com toda a solenidade que a minha infância permitia: “Eu sou um executivo.”
Eu nem sabia exatamente o que significava ser um executivo.


