Missionário das minhas memórias
Há sentimentos que se expressam por meio de uma exatidão inexata. São precisos na própria imprecisão, atuando como um lastro que se expande e rouba o oxigênio, desfocando os nossos limites. É um estado que resiste aos rótulos, embora exista de forma concreta na sua abstração.
Refiro-me ao vazio. Não aquele nada simples e oco, mas uma matéria escura, profunda e inevitavelmente presente.
O vazio jamais poderia ser definido como mera ausência, porque ele é. Possui arquitetura própria na ausência de forma. É o ser do não-ser, aquilo que Parmênides proibia e que Sartre veio autorizar: uma presença que ganha potência justamente pela recusa obstinada em desaparecer.
E é no vazio que ocorre o choque das nossas polaridades: o confronto silencioso entre o homem que eu já fui, aquele que não encontro mais no presente, e o que ainda não consigo enxergar no futuro.
Torno-me, assim, um missionário das minhas próprias memórias. Caminho pelas estradas sinuosas do passado em busca de asilo. É uma jornada marcada por uma urgência contínua de existir, resvalando em gotas de saudade e no suor de uma liberdade que permanece em cativeiro. Uma luta diária contra um gigante invisível.
E o meu refúgio não está no agora nem nas promessas do porvir. Está exatamente lá atrás, na terra estrangeira daquilo que fui e que hoje desconheço.


