Pólis & Gestão

Tenho como provar

Naquele relatório de estágio, depois de listar tudo o que havia dado errado no semestre, eu escrevi esta frase:

Tenho como provar os contatos que fiz e algumas negativas de escolas.

Ninguém tinha me acusado de nada. O formulário não pedia comprovação. Era um campo de autoavaliação, aberto, em que o aluno relata o próprio percurso.

E ainda assim eu ofereci provas.

Havia motivo. Eu precisava de uma escola para estagiar e não conseguia. Procurei várias, e várias me recusaram. Consegui uma no limite do prazo. Não recebi do polo nenhum apoio prático de intermediação, e o registro disso também está no relatório, escrito com o cuidado de quem mede cada palavra.

Eu tinha trinta e sete anos. Era servidor público federal, coordenava um setor, já tinha um mestrado. E estava batendo de porta em porta numa cidade pedindo que alguém me deixasse observar aulas.

Escrever aquela frase foi um reflexo, e o reflexo tem história.

Aos vinte anos, num primeiro emprego, alguém decidiu que a minha juventude e a minha cor eram motivo suficiente para não me levarem a sério, e eu não tinha instância a quem recorrer nem prova material da hostilidade. Anos depois, numa secrataria de escola, li no rosto de uma coordenadora a incredulidade de quem não aceitava que eu tivesse passado em terceiro lugar em um processo seletivo. E na universidade descobri que a minha cor, o meu endereço e a minha fé podiam ser lidos como demérito, sem que uma palavra fosse dita.

Quem passa por isso aprende cedo uma lição que não se desaprende: a sua palavra sozinha não basta.

Então você guarda e-mail. Guarda print. Anota data e horário. E, quando alguém pergunta por que você não entregou no prazo, você não responde apenas o motivo. Você oferece a documentação antes de ser solicitada, porque em algum momento da vida ficou claro que ela seria solicitada.

Não sei se a professora que leu aquele relatório reparou naquela linha. Provavelmente não. Era uma frase entre outras, num documento entre muitos.

Mas ela é a frase mais autobiográfica do documento inteiro.

E eu levaria mais quatro anos para reparar que estava ali.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

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