Educação & Cuidado

A vista que ninguém olha

A sala de Artes na escola onde fiz o estágio supervisionado em Teatro é boa. Tem televisão grande, quadro branco, aparelho de som, ar-condicionado, ventilador, bancadas próprias para desenho, pias para lavar material e uma sala anexa que serve de estoque.

As paredes são pintadas com desenhos de vários estilos, feitos para conversar com adolescentes. Anotei no diário que o ambiente era limpo, arejado, criativo e inspirador, e que provocava uma ânsia de criar.

E anotei outra coisa, numa frase que passou despercebida até para mim.

A sala tem uma vista privilegiada, que percebi não ser apreciada nem pelo professor nem pelos alunos.

Do outro lado daquela janela está a baía de Vitória.

E ninguém olha.

Levei tempo para entender que essa observação não é uma denúncia. Ninguém está errado ali. Uma vista que se tem todos os dias, às sete da manhã, a caminho de uma aula que não se escolheu, deixa de ser vista. Vira parede com claridade.

É assim com tudo o que está sempre disponível. O morador da cidade litorânea não vai à praia. Quem tem livro em casa lê menos que quem precisa pegar emprestado. A pessoa amada que está garantida recebe menos atenção que a que ainda não é certa.

O deslumbramento é filho da escassez, e não da beleza.

Eu sei disso porque cresci do outro lado dessa conta. Aos sete anos, vi dois homens de cabelo comprido cantarem em cima de um palco improvisado no meio da rua, imitando Zezé Di Camargo e Luciano, e aquilo nunca mais saiu de mim. Não era um bom show. Eram dois covers e algumas pessoas no frio. Mas era a primeira vez.

Aqueles alunos têm, todos os dias, uma janela que muita gente atravessaria a cidade para ver uma vez.

E eles têm razão em não olhar. Ninguém consegue se maravilhar por obrigação, e a exigência de gratidão pela paisagem é uma das formas mais chatas de sermão.

O que me pegou, quatro anos depois, foi outra coisa: eu escrevi que nem o professor olhava.

Um professor de Artes, numa sala de Artes, com a baía inteira do lado de fora, e a janela funcionando como parede.

Não porque ele não veja beleza. Porque ele tem cinquenta minutos, uma turma que não fica sentada dez, um slide para projetar e uma ocorrência para evitar.

A escola conseguiu a vista. O que ela não conseguiu foi o tempo de olhar para ela.

Tiago Rizzolli é administrador, professor, pesquisador e ministro do Evangelho (Missão Apostólica Assembleia de Deus – CADEESO/CGADB). Movido pela busca constante de sentido nas relações humanas, atua na intersecção entre a educação, a gestão e a espiritualidade. Doutorando em Educação com foco em filosofia e pensamento crítico, é também Coordenador-Geral de Atendimento à Comunidade no Ifes - Campus Cariacica. Neste espaço, ele compartilha análises e reflexões que cruzam as fronteiras do rigor acadêmico com a vivência prática, a liderança institucional e a fé cristã aplicadas ao dia a dia.

Leave a Reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *